__________ Itapema, suas histórias... __________

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

CRÔNICAS DA BARCA ITAPEMENSE

SEO MIGUEL DA BARCA - TIMONEIRO DAS MUITAS HISTÓRIAS DA TRAVESSIA MARÍTIMA ITAPEMENSE.

Existente desde Setembro de 1893, a travessia de Barcas ITAPEMA/SP até a vizinha Santos/SP, reserva ao longo das décadas fatos e histórias nesta sua rota pelas águas do estuário (Guarapissumã), águas de Enguaguassú e Largo de Caneú.
Nos primeiros tempos serviu como acesso à Vila Balneária (através do Distrito itapemense) para o veraneio da Alta Sociedade Paulista, na Ilha de Santo Amaro. Vindo da Estação santista em frente à Alfândega (Pça. República) e chegando à ITAPEMA/SP.  Este seria o único trajeto à Estância Balneária até 1918.
BARCA ITAPEMENSE SINGRA AS ÁGUAS DO ESTUÁRIO [DÉCADA DE 1920].

Além dos turistas, as Barcas transportavam os moradores locais e passou a interligar facilmente o Distrito itapemense à Baixada Paulista, com a movimentação dos habitantes das cidades litorâneas.
Pelo decorrer dos anos, o número de passageiros foi cada vez mais aumentando seu contingente, constituído de grande massa trabalhadora (do Porto, comércio, serviços etc) seja de pedestres quanto de ciclistas.
ITAPEMA/SP E SUA ESTAÇÃO DE BARCAS NA MARGEM ESQUERDA DA ILHA DE SANTO AMARO [ANOS DE 1920].

Esse vai-e-vem de pessoas, momentâneos encontros, na travessia marítima de Barcas ITAPEMA/SP [Vicente de Carvalho] e a cidade de Santos/SP, nos 15 minutos de duração do percurso, as vezes retardada consideravelmente pelo tráfego de navios no Porto, senão quando baixa intenso nevoeiro sobre o estuário, possibilitou algumas curiosidades envolvendo a travessia itapemense, suas Barcas e a Estação.
BARCA ITAPEMENSE UTILIZADA NA TRAVESSIA MARÍTIMA [DÉCADA DE 1910].

O CIR - Clube Internacional de Regatas, com sede náutica na margem esquerda itapemense (à época) utilizava das Barcas na realização de suas competições a remo para acomodar juízes de prova, autoridades e convidados. Tanto como em passeios no estuário do Porto. No mês de Novembro de 1913, sócios do Clube Internacional de Regatas (o "Gigante de Itapema") promoveram animado passeio pelas águas do estuário a bordo da Barca 'Paquetá'.
BARCA 'ITAPEMA' ACOMPANHA PROVA A REMO [ESTUÁRIO DO PORTO] 1914.
CONVITE SOCIAL DO CLUBE INTERNACIONAL DE REGATAS PARA PARTICIPAÇÃO NUM SEU EVENTO ESPORTIVO [NOVEMBRO DE 1919].
BARCA 'ITAPEMA' UTILIZADA EM REGATA NO ESTUÁRIO DO PORTO [JULHO DE 1915].
SÓCIOS DO CLUBE INTERNACIONAL DE REGATAS A BORDO DA BARCA 'PAQUETÁ' [NOVEMBRO DE 1913].
SÓCIOS DO DO CIR ORGANIZADORES DE FESTA A BORDO DA BARCA 'ITAPEMA' PELO ESTUÁRIO DO PORTO.

Um fato curioso é que antigamente algumas pessoas de famílias importantes do Distrito Itapemense eram enterradas nos cemitérios da vizinha cidade santista. O caixões também somente vendidos lá, quando necessitava-se de algum este era encomendado e ao chegar ficava pendurado na Estação de ITAPEMA/SP, até a família do falecido ir buscar. Fazendo assim a definitiva "travessia do Aqueronte".
No saguão de entrada da Estação sempre houve um quadro de avisos (desaparecidos, shows, casas para alugar, empregos, informações diversas). Quando dos temíveis "anos de chumbo", perseguidos pela Ditadura Militar brasileira, os revolucionários da esquerda figuraram em cartazes na parede da Estação das Barcas. Entre estes Dilma Roussef, que depois se elegeria Presidenta do Brasil.
Nesses anos todos o Serviço de Travessia Marítima itapemense empregou muitos trabalhadores da região. Houve quem se estabelecesse e constituísse família no Distrito. Bons marinheiros que contornando o Porto, bem como constante movimentação de embarcações (seja desde o cais da Alfândega santista) enfrentam o mal-tempo repentino, as correntezas do estuário. Pelos turnos de serviço a singrar à noite as águas ardentias iluminadas das margens, até uma segura atracação ao sabor do sacudir das marés na Estação de ITAPEMA/SP.
ANTIGO FUNCIONÁRIO DO SERVIÇO DE TRAVESSIA MARÍTIMA DE BARCAS [ITAPEMA/SP].
ALBINO DA BARCA FUNCIONÁRIO DA TRAVESSIA MARÍTIMA ITAPEMENSE/SP.
DOQUEIRO NO CONVÉS DA BARCA - MARGEM ESQUERDA ITAPEMENSE/SP.

A "Feitiço da Ilha", G.R.C.E.S. 'MOCIDADE AMAZONENSE' (sediada no Distrito) sempre teve disponibilizada Barcas extras no dia do Desfile de Carnaval, em Santos, para levar seus integrantes até a Praça da República. Afim de tomarem os ônibus especiais rumo à Passarela do Samba, o mesmo acontecendo no retorno.
FOLIÕES DA "FEITIÇO DA ILHA" A BORDO DA BARCA ITAPEMENSE RUMO AO DESFILE CARNAVALESCO.
   
Noutros tempos (década de 1980), confluência dos moradores de ITAPEMA/SP, o itinerário das Barcas suscitava namoricos, amizades e picantes fofocas cochichadas a bordo. Especialmente, no período da manhã (entre 7:30 às 8:00 horas) e o regresso à tarde (18 horas), quando muitos jovens do lugar trabalhavam no antigo centro comercial da cidade santense.
Havia ainda aqueles e aquelas, aproveitando o ambiente de "ver e ser visto" desfilavam um visual descolado: corte de cabelo, penteados, sapatos finos, relógios caros, embalos dançantes num walkman, seus tênis e roupas de marcas famosas, sempre numa pose escolhida visando impressionar. Frequentadores assíduos dos bailes Disco do Brasil A. C e Socia.
Devido a concentração de pessoas no horário do "rush" marítimo itapemense, alguns casamentos e rusgas resultaram destas travessias diárias, que ganharam o imaginário da cidade.
Dentre sua atividade usual, as Barcas itapemenses prestaram-se (nos anos de 1990 particularmente) a passeios pelo estuário do Porto e orla marítima das cidades vizinhas, promovendo atrações culturais. A bordo aconteciam exposições, apresentações artísticas, música etc.
Passado tantos anos da Travessia Marítima itapemense, sua Estação de passageiros sofreu ampliações e consideráveis reformas, que de certo modo descaracterizaram a arquitetura original. Seja no prédio desprovido do decorativo neoclássico, quanto no píer de atracação das Barcas e rampa de acesso. De forma mais significativa na parte posterior que dá para o chamado "Pontão das Barcas", o largo atrás da Estação em ITAPEMA/SP.
Por esta longeva importância histórica merece a muito um olhar de cuidado afim de promover a preservação, seu tombamento como patrimônio histórico.
ESTAÇÃO DAS BARCAS EM ITAPEMA SP - MARGEM ESQUERDA DA ILHA DE SANTO AMARO.
PRÉDIO ESTAÇÃO DAS BARCAS [ITAPEMA/SP] 2011.
BRASÃO ITAPEMENSE NO FRONTISPÍCIO DA ESTAÇÃO DAS BARCAS [2011].
PAREDE LATERAL PRÉDIO DA ESTAÇÃO DAS BARCAS [ITAPEMA/SP] 2012.
SAGUÃO DE ENTRADA ESTAÇÃO DAS BARCAS [ITAPEMA/SP].
PARTE POSTERIOR ESTAÇÃO DAS BARCAS [ITAPEMA/SP].

Vez ou outra o Serviço de Travessia Marítima de Barcas deixa a desejar, com enguiço de embarcações, má conservação, desconforto, atrasos, aumento de tarifa, tal insatisfação registrada na obra de artistas populares como fez num seu cordel ("Perigo nas Barcas"), o poeta Bem-te-vi:
BARCA ADHEMAR DE BARROS NOUTROS TEMPOS - O USO FREQUENTE DAS EMBARCAÇÕES SOMADA A MARESIA PROVOCA DESGASTES.

                         "As Barcas do Itapema,
                          Quando estão a navegar,
                          Atravessando pra Santos
                          Ou vindo de lá pra cá,
                          Amedrontam a qualquer um
                          Que por elas viajar.

                          Apresentam mau aspecto,

                          Estão deterioradas,
                          Não há mais manutenção
                          A pintura é desbotada,
                          Há gente e bicicleta
                          Numa mistura danada.

                          As bóias de salva-vidas,

                          Em cada embarcação,
                          Pra atender aos passageiros
                          Em caso de precisão,
                          Não chegam nem a um terço
                          Dos que dela dentro vão.

                          Ninguém toma providências,

                          Embora estejam sabendo;
                          O perigo ronda a todos,
                          Fingem que não estão vendo.
                          Será que estão aguardando
                          Acontecer algo horrendo?

                          O atracadouro das Barcas

                          Está todo em podridão,
                          Lá na Ponta da Praia,
                          Onde reina escuridão;
                          Bicicleta, gente e moto
                          Ali passam de montão.

                          A omissão é um crime,

                          Conforme o legislativo,
                          "Seguro morreu de velho,
                          Desconfiado ainda é vivo."
                          Sabendo deste ditado
                          Do perigo eu me esquivo."
BARCA PAICARÁ DISPONDO DE CAPACIDADE MÁXIMA DE PASSAGEIROS [ANOS DE 1980].
BARCA ITAPEMENSE/SP RECOLHIDA AO ESTALEIRO.
DESATIVAÇÃO DE ANTIGAS EMBARCAÇÕES DA TRAVESSIA MARÍTIMA ITAPEMENSE - LITORAL PAULISTA.
BARCA (ADHEMAR DE BARROS) NO ESTALEIRO - MARGEM ESQUERDA ITAPEMENSE/SP [PINTURA DE ATHAYDE LOPES]. 

No dia 23/03/2012, a Estação das Barcas em ITAPEMA/SP virou cenário do humorístico 'Casseta & Planeta', da Rede Globo de Televisão. Conforme explicou à imprensa o produtor Eduardo Santoro, o elenco gravou o quadro "Arca de Noé", do programa 'Casseta & Planeta - Vai fundo', episódio Ecologia, que irá ao ar em Abril. A locação foi escolhida porque, no enredo, Noé seleciona os personagens para embarcarem em sua "Nova Arca" (nossa Barca), após o fim do mundo. Tanto mais, por satisfazer as necessidades da produção, que precisava de uma embarcação grande e o fluxo de pessoas. Participaram da atração os humoristas Beto Silva, Hélio de La Peña e Miá Melo.
O HUMORÍSTICO 'CASSETA & PLANETA' (REDE GLOBO) GRAVA QUADRO PARA O PROGRAMA NA ESTAÇÃO DAS BARCAS DE ITAPEMA/SP [2012]. 

  
O CAPÍTULO CONTINUA...

sábado, 30 de setembro de 2017

UM BAR DE ITAPEMA


Omitirei os detalhes sobre a localização deste boteco. Mas estejam certos, ficava em Itapema. Drinks, petiscos, comidas típicas compunham o seu cardápio popular. A especialidade da casa: bolinho de bacalhau. Não era assim a realeza do quitute lusitano, porém até descia com cerveja estupidamente gelada. Essa crítica gastronômica é porque ainda trago na lembrança os bolinhos de bacalhau de Dona Rosa, antiga moradora da Rua Epitácio Pessoa, ali no Bairro Pae Cará.
Como quase todo dono de bar, D* era chegado nuns gorós. Pelo que sofria da mulher intensa repreensão. Levava à risca, sem saber, a sugestão de Henry Miller: "Beber gelado, mijar quente". De tanto servir e ver os outros beberem, dizia ter ficado "aguado".
Figura simpática, é sabido, também bastante peculiar. Venerava apaixonado o escudo do clube querido sob à guarda de São Jorge. Ao sabor de alguma bebida adicionada ao noticiário da televisão, entre rótulos de garrafas alcoólicas, não se furtava as opiniões a respeito da conjuntura nacional. Como se os seus julgamentos fossem imprescindíveis.
Recebia além dos concervejais habituantes, personalidades do Distrito itapemense (picaretas e gente boa) as quais sentavam em sua mesa para flagrantes fotográficos descontraídos, fixados num mural do estabelecimento. 
Espontâneo, bastava beber e tinha a mania de contar piadas, soltando ao final uma risada desmedida, extrapolando em graça.
Acaso a música na jukebox estivesse alta, mandava baixar o volume. Pois fazia questão de ser ouvido:
- A fulana tinha o traseiro tão avantajado... - Começava D* pondo ênfase ao predicado. - Que se peidasse, e saísse confete. Era Carnaval o ano inteiro... Há, há, há!! - Tinha preferência por datas comemorativas. De olho preocupado no calendário (impresso num cenário paradisíaco) e o vencimento de datas para saldar os fornecedores.
- Sabe por que o Papai Noel não faz filhos?... Hein, ô "Bebé". - Pausa cômica segurando o riso. Ao que o interlocutor embriagado arriscava um palpite.
- Ele já tá véio, pô...
- Por que o saco dele é de brinquedo! - E daí emendava uma larga risada.
Claro, ria-se a clake de fregueses até com mais entusiasmo para não perderem o fiado.
OS BARES DE ITAPEMA E SEUS PERSONAGENS PECULIARES.
    

domingo, 13 de agosto de 2017

ARISTIDES, migrante da terra itapemense




Aristides Inácio da Silva [imagem ao lado], pai de Luiz Inácio "LULA" da Silva. Trabalhou no cais do Porto santista durante mais de duas décadas. De origem pernambucana, Ele seria somente mais um esquecido Estivador que carregou sacas de café pelos armazéns do Porto, caso um dos seus filhos (o Presidente Lula) não se tornasse uma figura ilustre no meio sindical e político do Brasil.
Em Setembro de 1945, Aristides Inácio da Silva acompanhava a crescente migração nordestina de trabalhadores para o Sudeste brasileiro, à procura especialmente do Estado de São Paulo e na região da Baixada Paulista, o Porto de Santos. Aconselhado por conhecidos resolve ir para a cidade santista, no Litoral de São Paulo, onde teria uma chance de emprego como Estivador. Um trabalho de acordo com suas capacidades físicas, e para seu padrão, muito bem remunerado. Além do mais, serviço braçal, carregar peso, era quase tudo o que a cidade grande poderia oferece para um cidadão analfabeto.
Ainda no agreste de Pernambuco (Caetés), Aristides, pequeno proprietário de terra, havia desposado, somente no religioso, Eurídice Ferreira de Mello (carinhosamente conhecida como Lindu), de quem já tinha 7 filhos. O homem que Lindu amava, porém, não matinha fidelidade no casamento. Formado na cultura machista de sua época, orgulhoso de sua masculinidade, ele não deixava de cobiçar outros "rabos-de-saia". Sem sequer imaginar as escapulidas do marido, Eurídice cuidava dos filhos devotando carinho. E como suas obrigações eram muitas, acabou por aceitar a sugestão de que uma prima, com cerca de 13 anos, ajudasse no trabalho doméstico. Valdomira Ferreira de Góis (apelidada de "Mocinha"), era uma adolescente formosa, de olhos castanhos.
ARISTIDES INÁCIO DA SILVA E A FAMÍLIA FORMADA COM EURÍDICE INTERPRETADOS PELO ELENCO DO FILME 'LULA, O FILHO DO BRASIL' [2009].

Logo pegou prática nos afazeres da casa. A admiração que "Mocinha" tinha por Lindu tanto quanto por tudo o que pertencia à ela, inclusive seu esposo Aristides, crescia a cada dia. Difícil prever que a decisão de Eurídice ao aceitar a ajuda da prima Valdomira terminaria numa história típica de folhetim. A chegada de "Mocinha" invés de ser banal, provocou uma situação que mudaria sua vida e de toda a família de Lindu.
É impossível reconstruir a estória novelesca em detalhes. Mas o fato, é que Valdomira Ferreira de Góis e Aristides Inácio da Silva se tornaram amantes. Não se denota o quanto ele insistiu neste romance. Ou se foi "Mocinha", quem decidiu conquistá-lo. O que se sabe, é que naquele ano de 1945, Eurídice e Valdomira estavam grávidas ao mesmo tempo, do mesmo homem. "Mocinha" no começo da gestação, entretanto Lindu, bem buchuda, não desconfiava de nada.
As dificuldades de trabalho, bem como das condições de sobrevivência desalentadoras, tendo a esposa e a amante esperando filhos seus, Aristides repentinamente decidiu partir rumo a São Paulo. Assim, em Agosto de 1945, vendeu seu cavalo e disse para Eurídice que dentro de poucos dias subiria no primeiro pau-de-arara em direção à cidade grande. O motivo, ele alegava, era a seca. Não tinha jeito de plantar, manter um rebanho. Iria ganhar a vida no Sudeste, e de lá enviaria dinheiro para o sustento da família.
ARISTIDES INÁCIO DA SILVA MIGRA COM VALDOMIRA PARA O LITORAL PAULISTA - CENA DO FILME 'LULA, O FILHO DO BRASIL'.

Fazia um dia enevoado sob o sol árido, Aristides Inácio da Silva fechou sua mala de couro remendado. Os olhos de Lindu transbordaram do pote, seus filhos enfileiraram-se na soleira da casa, tentando decifrar aquele evento incompreensível. A esposa observou Aristides sumir na poeira da distância. Agora estava só, o filho Luiz Inácio ("Lula") na barriga, o qual nasceria dali dois meses... Poucos quilômetros adiante, embaixo da sombra de um imbuzeiro à margem da estrada, Aristides encontrou Valdomira ("Mocinha"). Fizeram hora ocultos na vegetação do Sertão, nisso caminharam juntos até a venda de onde sairia o pau-de-arara e partiram. Primeiramente para a capital Recife e depois a jornada marítima até São Paulo. A viagem precária anunciava ao casal recém-amasiado, que seus dias não seriam fáceis. Rememora Valdomira Ferreira de Góis:
"(...)Vim com o pai dele [Lula] para São Paulo. Eu vivia lá sozinha, sem pai. Não conhecia a família de Aristides até minha mãe se mudar para lá, onde foi trabalhar de alugada. Eu não pensava nada naquele tempo. Ele não falou nada pra mim. Mandou uma mulher perguntar se eu queria ir embora mais ele. Eu achei que era pra vir trabalhar pra cá. Aí vim. Tinha uns 16 nos, era mocinha. Fugimos de noite. Fugi porque não pensei em nada..." - Eurídice sempre fora boazinha, prima de "Mocinha" por parte de pai. Seu tio era pai de Lindu. Valdomira vivia e comia na casa dela porque a mãe trabalhava lá, conforme diz numa entrevista, e acrescenta.
"(...)Lá no Norte, o pai do Lula nunca falou nenhuma besteira para mim. Quem me iludiu para vir foi a Alzira, me chamou quando vinha da escola: "O Aristides perguntou se você quer ir pra São paulo mais ele." Ele sofreu por minha causa. Eu era de menor. Ele foi preso em Recife, não ficou comigo. Eu fiquei com umas meninas num hotel. Ele mentiu que eu era irmã dele, mas os documentos não marcavam. Aí arrumamos uma passagem de navio pra ir embora pra Santos. Quando nós embarcamos no navio foi a mesma coisa. Eu fiquei no albergue e ele preso, lá no Rio de Janeiro. Depois ele ficou livre. Aí não me separei dele não, ficava chato ficar sozinha por aqui. Se voltasse para o Norte iam falar mal de mim. Então fiquei..."
ITAPEMA/SP NA MARGEM ESQUERDA DO PORTO [BAIXADA PAULISTA] 1939.

Ao chegar na região da Baixada Paulista para trabalhar no Porto de Santos, estes migrantes nordestinos compulsoriamente abrigavam-se em áreas urbanas mais baratas, com aluguel menos caro, de forma provisória nos quintais de parentes, buscando se estabelecer. ITAPEMA/SP, do outro lado do Porto, na margem esquerda da Ilha de Santo Amaro, apresentava-se como opção de moradia. Sua localização defronte a zona portuária, serviços regulares de transporte com as cidades do entorno e oportunidade de fácil habitação, possibilitava à massa trabalhadora permanecer e empregar-se na atividade laboral.
Inesperadamente naqueles primeiros momentos de estadia, Aristides descuidado sofreu um acidente. Uma lata enferrujada rasgou seu pé descalço, atingindo o osso. Caiu doente, o diagnóstico da Santa Casa de Misericórdia seria tétano, a infecção que surgiu no ferimento quase o derrubou para sempre.
Aristides era ensacador de café no Porto de Santos, exercendo a profissão de estiva como avulso. No local de trabalho faria amizade com Ari da Silva Souza, empregado da Companhia Docas, mestre-caldeireiro e inventor de ferramentas de utilidade portuária, que abrigou o migrante nordestino no porão de sua casa por quatro dias quando o amigo necessitou.
Contudo, passada as agruras iniciais para os amásios, Aristides providenciaria residência num típico chalé itapemense, na Rua Minas Gerais Nº 275, Bairro Vila Alice, vivendo maritalmente com Valdomira Ferreira de Góis, a formar uma segunda família. Pretendia uma situação financeira mais estável, enfim viver do seu trabalho e ganhar a vida.
RUA MINAS GERAIS (BAIRRRO VILA ALICE) - ONDE MOROU ARISTIDES INÁCIO DA SILVA [ITAPEMA/SP] 2011.

Pojucã da Silva Souza, 61 anos (filho do amigo Ari, vizinho de rua), trabalhador portuário, que também conviveu intimamente com Aristides conta sobre ele, na reportagem de Bruno Merlin:
"Ele era um homem forte, alto e cumpria seu trabalho com eficácia, carregando várias sacas de café nos ombros..." - Como naquela época ganhava-se por produção, Aristides trabalhava muito faturando um bom salário.
O agora estivador Aristides Inácio da Silva mandava de vez em quando algum dinheiro para o Distrito de Caetés, onde deixara sua família primeira. Também enviava e recebia notícias através de cartas que seus amigos alfabetizados ajudavam a escrever e entender. Lá no semi-árido pernambucano, do município de Garanhuns, a enganada esposa Eurídice esperava naquela incerteza, seus filhos inseguros.
"Para nós, naquele tempo, não tinha esse negócio de chorar. Ele disse que vinha trabalhar e mandar dinheiro. E mandava. Não todo mês, quando dava. Era difícil chegar..." - Se alembra o filho Genival Inácio da Silva, o Vavá.
Aristides era um trabalhador honesto, ensacador de café competente, um dos melhores, dos mais fortes, e consciente da categoria à época. Sem ser politizado, admirava Getúlio Vargas e Luiz Carlos Prestes. Embora estivador tinha o hábito de ir trabalhar alinhado, de terno e gravata.
Mas, nada indica que Aristides pensasse num desenlace definitivo com a esposa Eurídice. Cinco anos depois (1950), retornaria a terra natal de visita. Ocasião inclusive em que apresentou à sua primeira família, os três filhos tidos com a mulher Valdomira ("Mocinha"). Todavia, sem mencionar nada a respeito do amasiamento. Momento em que também veio a conhecer seu filho Luiz Inácio ("Lula'). O menino de cinco anos de idade, o vê como uma aparição:
"- Quem é esse homem?..." - Pergunta ao encontrá-lo.
Aristides contou que havia "andado embaixo da terra", referindo-se espantado aos túneis da Via Anchieta, em direção à Baixada Paulista. Ainda nesta rápida estada, a esposa engravidaria então da filha "Tiana" (Rute). De volta para ITAPEMA/SP, por insistência de Lindu, bastante cabrera, traz consigo o  filho Jaime.
Nesse contexto da migração, fixando-se ao lugar, Aristides Inácio da Silva tornou-se um legítimo representante do tecido social formador do Distrito itapemense, agregado à sua população originária, que lhe acrescentaria uma outra característica cultural marcadamente nordestina.
Em Dezembro de 1952, quando "Lula" tinha apenas 7 anos de idade, Eurídice decidiu migrar para o Litoral do Estado de São Paulo com seus filhos, a fim de reencontrar o marido estivador. Acreditando que Aristides fizera esse pedido. Mas, na verdade fora invenção de seu filho Jaime, o qual escreveu dizendo para a mãe ser este o desejo de Aristides, reunir a família. De fato, a carta era do pai, que ditou o texto para o filho escrever. Aristides dizia que estava mandando dinheiro, e que Lindu continuasse por lá cuidando bem de sua gleba de terra. Afirmava ser a vida por aqui muito difícil, embora trabalho não faltasse.
"Meu pai não sabia ler. Eu também não sabia, nem sei até hoje. Essa é a verdade. Mas sabia fazer rascunho. Eu tava apanhando que nem cachorro velho e sozinho. Sofrendo como um condenado. Ele mandava notícias pra mãe, falando em saudade, dizendo que tava tudo bem. Mas era só a carta que tinha saudade, não o pai. Como ele não sabia ler, aproveitei o embalo..." - Jaime escrevinhou em algumas linhas diferente das ordens de Aristides:
"Lindu,
vende tudo e vem pra cá viver comigo. A vida aqui é melhor. Estou te esperando. Aristides." - Mas isto o filho não leu. O pai pediu pra ver a carta. E olhou com cuidado. Porém, era cego para o alfabeto.
Ou em outras palavras, do jeito que conta Jaime:
"(...)Vocês vão morrer de fome aí. Vendam tudo e venham pra cá."
Após treze dias de viagem em um pau-de-arara (caminhão carregado de gente na carroceria) desceram num lugar do Bairro do Brás, na Capital Paulista.
"(...)O pau-de-arara parava nos postos de gasolina pra gente dormir, pra comer farofa. Os porcos vinham roubar a comida da gente a noite. Era só poeira..." - Lembra Vavá da viagem dificultosa, o caminhão apinhado de retirantes e seus parcos pertences.
Tomaram um táxi, descendo a Via Anchieta (recém inaugurada) até a Baixada Paulista, no Porto de Santos, onde chegaram ao ITAPEMA/SP, na Ilha de Santo Amaro.
"(...)Eu só me lembro da gente na porta do balcão do Porto de Santos. E da frustração da minha mãe..." - Recorda Luiz Inácio.
ITAPEMA/SP ÀS MARGENS DA ILHA DE SANTO AMARO - LITORAL PAULISTA [DÉCADA DE 1960].

Dentro da Barca, Lula e seus irmãos, sujos e descabelados, seguravam em suas trouxas com roupas gastas, fotos de família, coisas mínimas. Lindu carrega o maior patrimônio estimado, os filhos tidos com Aristides, acreditava que sua vida recomeçaria naquele instante... Para alguém acostumado a ver pequenas quantidades de água, deslizar entre navios enormes parecia coisa de outro mundo. Logo, a Barca atracaria, num reencontro com o marido... Quando desceram da embarcação na Estação de Itapema, conseguiram informações sobre o estivador Aristides. Ele estava próximo, e alguém foi avisá-lo de que sua família havia chegado. Aristides contrariou-se... "Só me faltava essa!" Chamou Jaime, que descansava recostado num canto. Os dois saíram rapidamente. Em frente a um bar, Eurídice e seus filhos esperavam ansiosos. Mas, seus sorrisos se dissolveram quando olharam nos olhos de Aristides. Viram neles a cor da raiva. A boca contraída de indignação.
"PONTÃO DAS BARCAS" EM ITAPEMA/SP [ANOS DE 1960].

"(...)Ele [Jaime] escreveu para nós em 1952. Foi coisa dele dizer para a mãe que era pra vender tudo e vir embora para São Paulo. O pai não estava nos esperando. A reação dele foi braba..." - Comenta José Ferreira, apelidado "Ziza" (hoje Frei Chico).
"(...)O pai não sabia que eu tinha escrito e estranhou quando chegaram aqui. Chegou a turma toda, eu não conhecia mais ninguém. Ele ficou macho... Tava morando com a outra, não sabia o que fazer..." - Aristides nunca soube quem os tinha chamado, conta Jaime.
Noutro depoimento à jornalista Denise Paraná acrescenta Vavá:
(...)Chegamos em São Paulo e andamos pela primeira vez de automóvel. Uma maravilha. Um táxi. Um chevrolet 51. Era uma alegria a sensação. Descemos no Armazém VIII, fomos atrás do meu pai. Ele era carregador de café, quando ele nos viu, só não matou a gente porque não pôde. Tinha outra família. E casa pra todo mundo?..." - Cismou então que deveriam ter trazido seu cachorro de estimação ("Lobo"). Mas como?... Deixaram lá o bicho abandonado! Pra ele era preferível ter vindo o cachorro.
"(...)Meu pai não queria que eles viessem..." - Reintera Jaime, que morria de saudade.  
Aristides talvez considerasse de forma conveniente poder ficar com duas famílias, sendo mínimo provedor delas. Pelo caráter adquirido da condição de marido, próprio daquela época. Envolvendo as mulheres numa relação ambígua dentro do aceitável. Uma residindo no Distrito itapemense, a outra em Caetés (PE).
Ficara evidente que ele pretendia ter uma nova vida na cidade grande. Eurídice e os filhos ao lado atrapalhavam.
Em ITAPEMA/SP, surpresos, tiveram de dividir a convivência de Aristides mais a família formada com Valdomira, sob o mesmo teto.
"(...)Depois, aqui, eu queria conversar com ela, mas ela não queria. Ela tinha raiva de mim, mas eu não tinha raiva dela. É que eu vim com o marido dela..." - Comenta "Mocinha" numa entrevista.
Aliás, o excepcional da circunstância, ter duas famílias, casado com Eurídice e amásio de Valdomira (prima da esposa), que convivera com o casal, numa certa semelhança destes particulares escândalos domésticos, guarda exemplos em algumas antigas famílias de origem nordestina, as quais se constituíram em ITAPEMA/SP. Muito por conta da distância, os encontros e desencontros da migração, dos novos vínculos afetivos e relações estabelecidas.
A convivência difícil, motivada pelo marido (extremamente rigoroso com seus filhos), pois era rude, muito bruto, sem nenhum carinho por eles. E diante do inusitado daquela situação do casamento. Levou Lindu a pedir para sair de casa com a filharada. Aristides passou a morar noutra, vizinha a de Eurídice, também na Rua Minas Gerais - Bairro Vila Alice.
"(...)A mãe do Lula ficava na casa grande porque tinha muitos filhos..." - Menciona Valdomira.
"(...)Ficamos um ano e pouco com ele. Levou a família para a outra casa e nós ficamos morando na casa que ele morava. Era muito ignorante. Maltratava muito a gente. Minhas irmãs trabalhavam em casa de família, os mais velhos também trabalhavam. A gente não podia sair de casa, não podia ir à escola..." - Lembra José Ferreira, o "Ziza".
A PERSONALIDADE EXTREMADA DE ARISTIDES INÁCIO DA SILVA TORNAVA A CONVIVÊNCIA DIFÍCIL COM A FAMÍLIA - CENA DO FILME 'LULA, O FILHO DO BRASIL' [SET DE FILMAGEM ITAPEMA/SP].

Aristides dera para negligenciar a família tida com a primeira mulher. Era do tipo de homem de mandar em casa. Que lhe devessem respeito incondicional. Prepotência das razões. Corrigindo tudo a base de surras, como bem aprova o senso comum. Ter duas, três mulheres conforme lhe aprouvesse. Estúpido no trato familiar, proibia os filhos até de ir ao cinema (nesse tempo o Distrito mantinha dois: Cine-Teatro 'Itapema' e Cine 'Avenida'), além de coisas corriqueiras como jogar bola na rua ou comer uma guloseima sem sua autorização.
"(...)Uma ocasião ele  chegou, passou em casa e a gente tava chupando sorvete. Queria saber onde arrumamos dinheiro. Ameaçou a gente. Bateu na minha irmã. Era muito ignorante..." - Fala José Ferreira, guardando alguma mágoa.
"(...)Ele só passava na casa da minha mãe pra ver como as coisas estavam e dormia na casa da outra. Nós trabalhávamos [Jaime empregou-se num estaleiro do Itapema]. Era do trabalho pra casa, não podia fazer nada. Ele sempre ajudou mais a outra família. A gente se virava..." - Diz Jaime, sem compreender o pai.
Todos os dias, Lula e o irmão José Ferreira (Frei Chico) eram encarregados por Aristides à buscar água nas bicas de ITAPEMA/SP, também para a segunda mulher do pai, Valdomira. Em troca ela lhes dava pão velho:
"(...)A mãe pedia para a gente não aceitar, mas nós comíamos escondido..." - Confessa Luiz Inácio. Noutro depoimento reintera:
"(...)Nós não tínhamos vida de criança, não tinha esse negócio de brincar, jogar bola, se divertir..."
Seus modos ríspidos levavam ao retraimento afetivo das crianças, as quais temiam Aristides. Por dar a entender serem os filhos um estorvo na vida dele.
"Quando estava chegando a hora de meu pai chegar em casa, era uma tortura para todos nós..." - Comenta Luiz Inácio, "Lula". - "(...)Meu pai era aquele tipo de pai que o filho não tinha prazer de chegar em casa, porque só batia, gritava, não tinha uma palavra de carinho com a gente..." - Durante uma surra, Ziza apanhou tanto que fez xixi nas calças.
"(...)Minha mãe não tinha opção... (...)Precisava sustentar os filhos e dependia do meu pai." - Pondera Genival Inácio da Silva, o Vavá.
Durante este período Lula foi alfabetizado no Grupo Escolar 'Marcílio Dias' e teve como professora D. Cassiana. Apesar da falta de incentivo do pai (analfabeto) achando que seus filhos não deveriam ir à escola, mas apenas trabalhar ou só servia para as filhas aprenderem a escrever cartas aos namorados. Entretanto, sem saber ler, Aristides sempre comprava o jornal do dia. Luiz Inácio guarda em suas recordações sobre o pai, esse modo contraditório de ver a vida por Aristides. Contou ele para o jornalista Mário Morel:
"(...)Eu me lembro que minha mãe me colocou na Escola e ele não queria. Xingou minha mãe. E no primeiro dia que eu fui na Escola, quando eu estava chegando, ele estava em pé no portão como se fosse um todo-poderoso, para me dar bronca porque eu tinha ido para a Escola. Eu cheguei meio escondido, atrás de uns pés de cará, com medo de chegar perto dele."
MILHEM CORTAZ INTERPRETA ARISTIDES INÁCIO DA SILVA - CENA DO FILME 'LULA, O FILHO DO BRASIL' [SET DE FILMAGEM ITAPEMA/SP].

Aristides Inácio da Silva deu para beber com frequência. Descarregar nos filhos suas frustrações. Totalmente insensível aos sentimentos da família, duma crueldade mesmo.
"(...)Meu pai era um homem muito rude. Um dia nós estávamos todos juntos. Meu pai comprou sorvete. Eu nunca tinha chupado um sorvete na minha vida. Meu pai deu um sorvete para cada um dos filhos dele com a outra mulher. Aí sobrou um. Ele esticou para me dar e depois não deu, dizendo que eu não sabia chupar sorvete. Até hoje eu lembro. Isso me marcou muito. Porque o mínimo que a gente espera de um pai, é que ele ensine o filho a chupar um sorvete..." - Revela Lula. "(...)Era muito ignorante. Levantava cedo, tomava café, comia o pedaço de pão dele. Depois pegava o restante e botava numa lata em cima do armário e ninguém podia comer." - Não poupava nenhum da sua numerosa prole. Certa vez a filha lhe pediu um naco de pão-doce, e Aristides fez ouvidos mocos, deu para o cachorro ao pé da mesa.
Aristides trabalhava demais para sustentar os vários filhos e a duas mulheres que tinha. Embora faturasse respeitável salário exercendo a função de ensacador de café, mais até que a maioria dos estivadores, possuía muitas despesas a pagar devido a quantidade exagerada de filhos, os quais mantinha.
A única coisa que ensinou aos filhos foi caçar. Era muito conhecido na região: Aristides, o caçador. No fim-de-semana ele não trabalhava para poder fazer caçadas e se divertir.
"(...)Ele nos levava nas caçadas. Acendia uma fogueira à noite para espantar as cobras e saía para caçar. A gente dormia ali, com medo..." - Menciona Luiz Inácio.
Além de lazer, a caça garantia alguma alimentação para suas famílias, economia das despesas domésticas, lucro com a venda para conhecidos, tanto como prestígio no Sindicato:
"(...)Aristides sempre dava o produto de suas caças para os diretores do sindicato. Dessa forma, ele nunca ficava sem trabalho, já que o próprio sindicato era encarregado de escolher os trabalhadores que as empresas requisitavam..." - Diz o amigo Pojucã da Silva Souza. Ressaltando ainda, que o Estivador também criava vários cães, mais de 20, e muitos o seguiam fielmente.
Neste aspecto Aristides Inácio da Silva, migrante devidamente integrado, reproduz um antigo e típico hábito itapemense de exploração da Restinga no Distrito, das matas adjacentes nas cidades vizinhas, visando a coleta de víveres (palmito, goiaba, limão galego, taióba, bucha, lenha). Pesca artesanal no estuário, além de rios da região (siri, peixes, camarão). Apanha de crustáceos pelos manguezais (caranguejo, marisco, berbigão).
A Restinga remanescente de ITAPEMA/SP era pródiga de alguns recursos naturais. Moradores extraíam areia, xaxim, bambu, ticum (coquinho), brejaúva, ervas medicinais e plantas ornamentais: bromélias, samambaias. Também caçavam pequenos animais: jacarés, capivaras, preás, teiús, saruês, jabutis e rãs. Pássaros canoros: coleirinhas, canários-da-terra. 
Nas horas de folga, Pojucã (vizinho da Rua Minas Gerais) tinha o hábito de caçar com Aristides, admirado por sua perspicácia na atividade e pela vontade audaciosa de adentrar nas matas atrás de animais como antas, tatus, cotias, veados e porcos-do-mato.
Pois comportava-se assim, de um jeito na rua. Diferente dentro de casa. Para os outros sempre muito bom. Para os filhos, ruim.
Aos domingos, Lula (Luiz Inácio) e Ziza (José Ferreira) a mando de Aristides iam apanhar no mangue caranguejos, mariscos e lenha nas matas dos arredores. Outras vezes empreendiam pescaria na Bocaina utilizando-se da "chata" do pai, lá atracada, como forma de suprir as necessidades da família.
Um dia, num passeio a "chata" inundou, rememora Lula, "e eu não sabia nadar. Fiquei parado, esperando. Meu pai me derrubou na água com uma remada na cabeça. Meus irmãos me salvaram..."
Aconteceu que roubaram o barco de Aristides, e ambos apanharam pra valer. O pai batia com cinto, vara, pedaço de corda, aquilo que tivesse a mão. Lula pela idade apanhava menos. Doutra feita, depois de mais uma "pisa" sofrida por Ziza, partiu pra sovar Lula:
"(...)Quando ele veio bater em mim, minha mãe não deixou. Aí ele deu uma mangueirada na cabeça dela e isso foi o começo da separação."
ARISTIDES INÁCIO DA SILVA PENSAVA CORRIGIR OS FILHOS À BASE DE PANCADAS - CENA DO FILME 'LULA, O FILHO DO BRASIL' [SET DE FILMAGEM ITAPEMA/SP].

Insatisfeita devido ao alcoolismo do marido, a condição a que fora relegada, Eurídice resolveu partir em 1954 para a Capital paulista.
"(...)Um dia a mãe descobriu que a outra mulher do meu pai ganhava mais coisas que ela. Tinha uma quitanda e o pai mandava entregar os alimentos. Aconteceu de entregarem errado. A mãe foi acumulando raiva..." - Diz Luiz Inácio. Daí um certo dia, Aristides quis bater em Lindu por causa de uma roupa muito velha, que não segurava mais ponto de costura. Outra mulher, ela suportava. Mas apanhar, não.
"(...)O pai nunca tinha botado a mão na minha mãe, até o dia em que pegou uma calça descosturada e esfregou no nariz dela..." - Menciona Maria da Silva, filha do casal.
Eurídice disse naquele momento desacorçoada:
"- É a primeira e última vez. Quando voltar, não vai me encontrar." - Deu um basta.
Tudo agravara-se brutalmente desde que perdeu os recém-nascidos gêmeos prematuros, de um parto feito em casa. Lindu precisou ser hospitalizada e quase morre. Aristides não tomou conhecimento, os gêmeos faleceram dias depois.
"(...)Quando minha mãe deixou o meu pai, disse para ele: Se eu te encontrar na rua, vou passar de um lado da calçada e você do outro..." - Comenta Maria. Eurídice cumpriu a palavra. Jamais quis saber dele de novo. Sequer notícia.
ARISTIDES INÁCIO DA SILVA (MILHEM CORTAZ) EURÍDICE (GLÓRIA PIRES) - CENA DO FILME 'LULA, O FILHO DO BRASIL' [SET DE FILMAGEM ITAPEMA/SP] 2009.

Desvencilhar-se da primeira família em nada lhe traria sossego. Valdomira Ferreira de Góis (a segunda mulher) e seus filhos, não escapariam aos rigores de sua personalidade, acrescida da agressividade intensificada pelo alcóol. Há quem se lembre, principalmente moradores antigos do Bairro Vila Alice, de seus modos peculiares, o trato então dispendido aos familiares.
"(...)Para mim o Aristides nunca fez nada. Só uma vez puxou meu cabelo porque dei um empurrão nele. Um dia me deu um tapa e eu enfiei uma faca na barriga dele..." - Comenta "Mocinha". De Aristides Inácio da Silva, Valdomira gerou 10 filhos que se criaram.
"Mocinha" o deixou por três vezes querendo dar um fim aquele relacionamento. Inclusive recebeu abrigo com seus filhos, na casa de Lindu, na Vila Carioca, em São Bernardo do Campo/SP. Mesmo após os dissabores familiares que Valdomira provocou à prima.
Enganados pela promessa de que o pai deixaria de beber, voltavam para casa. Um dia, Aristides bateu nas costas do filho José Rubens até sangrar.
Suas atitudes descabidas extrapolavam a racionalidade. Se transformara ruim para todos, atentava contra a própria família.
"(...)Eu saí de casa porque ele queria matar os meus meninos todos. Um dia botou a espingarda, a menina dormia na cama, a espingarda disparou, quase pega na cabeça dela. Eu fui obrigada a sair..." - No ano 1967, Valdomira Ferreira de Góis se separou do marido, indo residir em Itanhaém/SP. Aristides depois mudaria da Rua Minas Gerais, perdendo contato como velhos conhecidos. A família fragmentou-se por localidades da Baixada Paulista, vencendo à própria sorte. O estivador amancebou-se duma terceira mulher, trabalhava e vivia ao sabor da cachaça, segundo os próprios preceitos, ainda morando no Distrito itapemense.
Anos mais tarde Valdomira Ferreira de Góis retornou para ITAPEMA/SP. Alguns filhos de Aristides e "Mocinha" fixaram-se por aqui:
João Ignácio da Silva, apelidado de "Lulinha", dada a semelhança com o irmão mais ilustre, por parte de pai. Morava com a mãe Valdomira. Foi balconista na Padaria 'Real Brasil' (Av. Santos Dumont), em ITAPEMA/SP.
Germano Ignácio da Silva, último dos filhos de Aristides mais Valdomira. Residente na Rua Santa Isabel Nº 240, Bairro Pae-Cará. Um Emancipacionista do Distrito itapemense. Pai de Nathan Lyneker Rodrigues Ignácio da Silva, estudante da Escola 'Walter Scheppis', neto de Arisitides. Germano (ex-Prático), aos 41 anos de idade, já trabalhara como segurança, motorista de táxi e detetive. Empregou-se numa prestadora de serviços sob controle da Petrobrás.  

Aristides Inácio da Silva [imagem ao lado] fazia jus a mítica estirpe nordestina. Homem de brios, sujeito honrado. Aristides, o caçador. Mateiro experimentado. Tiro certeiro de espingarda calibre "22". Conhecido naqueles tempos em ITAPEMA/SP como o "Homem das 7 mulheres", dado sua história pitoresca de casamentos. Reconhecido pelos locais do Distrito quando chegava. Um "cabra valente", sem aceitar desaforos ditos, não fugia de contenda havida de "peixeira".
Envolveu-se em sérias confusões em ITAPEMA/SP. Certa vez, brigou com um compadre jogando dominó, durante a luta corporal foi ferido de faca entre as costelas, que o fez perder um pulmão. Numa ocasião, Aristides recebeu 14 facadas após uma discussão. Socorrido ao hospital em condições precárias, sobreviveu. Provavelmente pelo seu preparo físico e força invejável.
O alcoolismo jamais permitiu que dedicasse aos filhos, bem como às mulheres o carinho e respeito que estes mereciam. Seu filho Jaime só voltaria a encontrar o pai de novo, no ano de 1963. Aristides estava numa pingaiada danada. Um tio o trouxe para morar com ele, visando ajudá-lo. Mas não parava de beber e fugiu. Luiz Inácio, Lula, veria o pai poucas vezes depois de adulto.
Aristides trabalhou muito, sempre como Estivador, até se aposentar na década de 1970. Embora fosse sindicalizado e atuante raramente é lembrado pelos estivadores, os quais trabalharam nessa mesma época no Porto, pois naqueles tempos não tinha o status de "Pai do Presidente da República", Luiz Inácio "Lula" da Silva. Ao todo foram 18 filhos, que se criaram adultos. Nunca deixou faltar comida em casa. Homem muito honesto, não devia nada para ninguém. Era demais correto nas coisas onde empenhava a palavra.
Entretanto, com a inatividade começou a embriagar-se constantemente. Aristides Inácio da Silva, migrante nordestino de nascimento, Itapemense por adoção, morreu vítima de cirrose hepática, às 02:05 h, do dia 03 de Maio de 1978, sendo enterrado pelo dia seguinte, no Cemitério Distrital de Vicente de Carvalho (ITAPEMA/SP).
"(...)Ele não deixou nenhuma saudade." - Confessa o filho Jaime. Aristides, um progenitor de poucas boas lembranças na memória da família.
Sem remorsos ou alguma dó pelo pai, Luiz Inácio elabora este sentimento filial:
"(...)Mas também não me queixo, não quero ficar remoendo. Hoje olho para trás e não tenho ressentimento. Milhões de pessoas passam por isso. Uns conseguem superar, outras não..." - Disse Lula para Eliane Brum (ÉPOCA).
A figura paterna entre os filhos parece carregada de ambivalências nos depoimentos. Seja quando Luiz Inácio cita o pai espelhando-se no seu trajar alinhado ou a sua honradez, quanto em comentários ressentidos dos outros irmãos.
O velório de Aristides foi acompanhado por antigos vizinhos da Rua Minas Gerais, alguns colegas. Teria sido sepultado como indigente, embora conste registro e pagamento por terceiros (campa 2, quadra T), nenhum dos familiares sabedores do fato quis assumir a responsabilidade do corpo, permanecendo numa vala-comum. Quando o pai faleceu, só descobriram 10 dias após o ocorrido. Luiz Inácio recebeu uma carta e deu a notícia aos irmãos.
"Morreu. Tava feito..." -  Enfatiza o filho mais ilustre. Era revirar uma dor pessoal. As famílias haviam feito cada uma o seu caminho, seguido sua vida. Quase sem contato.  
Seus restos mortais ficaram por cinco anos (1978 à 1983) à espera de um parente que lhe desse um túmulo perpétuo. Conta José Ferreira, o Ziza:
"Um ano antes dele morrer, eu, minha mulher, o Lula e a Marisa [Letícia] fomos visitá-lo. Deixamos endereço, telefone, para um cara no boteco. A outra família já havia abandonado o meu pai, porque também era muito ruim para eles. Ele ficou doente mas não nos avisaram. Uma outra mulher que tomava dinheiro dele, disse que não tinha parente nenhum, que podia enterrar..." - Como os familiares não quiseram, nem providenciaram a transferência dos restos mortais de Aristides para um jazigo com lápide e epitáfio. Como ninguém prontificou-se em reclamar, passado o período os restos cadavéricos foram exumados, então colocados dentro de um saco, que amarrado e com uma etiqueta de identificação, seria transferido para um ossário do Cemitério da Consolação (ITAPEMA/SP).

quinta-feira, 27 de julho de 2017

FERROVIA DE CARGA EM ITAPEMA/SP

LOCOMOTIVA OPERA NA FERROVIA DE CARGA EM ITAPEMA/SP.

A vocação portuária itapemense advinda da utilização de suas margens por estaleiros, píeres de transbordo de produtos e/ou mercadorias, ancoradouros pesqueiros, postos da administração portuária, garagens de barcos dos clubes náuticos, terminais de transporte de passageiros, dentre outros serviços marítimos feitos em pequenas e médias embarcações ainda em tempos remotos, efetiva-se à partir de 1958 quando é implantado pela CDS - Companhia Docas de Santos o primeiro cais em Conceiçãozinha, recebendo navios de maior porte.
O projeto do urbanista Prestes Maia (Plano Regional de Santos - 1950) preconizava a construção de novas instalações portuárias na margem esquerda de ITAPEMA/SP, promovendo indústrias e terminais marítimos de carga, a serem atendidos pelos diferentes modais, inclusive o ferroviário.
O RAMAL FERROVIÁRIO DE CARGA CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ CHEGA AO DISTRITO ITAPEMENSE/SP.
FERROVIA DE CARGA CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ ATRAVESSA ITAPEMA/SP.

No início da década de 1970 havia uma projeção de avanço agrícola da produção brasileira, consequentemente perspectiva de expansão do Porto na margem esquerda itapemense do estuário, instalando-se terminais marítimos de carga a granel. Tanto como desapropriações de terrenos para assentamento do Retroporto.
Em 1971, passa a funcionar o Complexo Industrial da Dow Química S/A, em Conceiçãozinha, dispondo de cais com 153 metros de comprimento para operação de granéis líquidos (produtos químicos, inflamáveis).
Pelo final de 1971, sob administração da CDS - Companhia Docas de Santos, é inaugurado em Conceiçãozinha, o Terminal de Fertilizantes (TEFER), também denominado "Cândido Gaffré", com movimentação de granéis sólidos minerais (adubos, enxofre), a princípio transportados por caminhões. Em 1977, o TEFER era considerado o maior terminal exclusivo recebedor de adubo a granel do Brasil. Capacidade nominal de 180 mil toneladas. Dotado de Grabes (guindastes), operando 2 navios simultaneamente e descarga de até 4 produtos diferentes. À época 80% do adubo importado pelo Porto desembarcava na margem esquerda de ITAPEMA/SP.
A CONSTRUÇÃO DA FERROVIA DE CARGA AVANÇA O DISTRITO ITAPEMENSE/SP [DÉCADA DE 1970].

Para recebimento de mercadorias, bem como suprir demandas dos Terminais Marítimos projetou-se um Ramal Ferroviário de Carga, construção iniciada em 1975, pertencente a RFFSA (Rede Ferroviária Federal S.A.), cerca de 4 Km em bitola mista (três trilhos), que veio beirando ITAPEMA/SP, às margens do estuário (Bocaina, Prainha) em direção à Estrada Velha da Conceiçãozinha. Neste trajeto cortou o antigo campo do Itapema F.C., na Rua Leonilópolis, atravessou terrenos dos estaleiros, desapropriou casas, comércios, avançou sobre o Cine Itapema (saudoso "Cinema Grande"). E bem mais adiante desbastando a Restinga itapemense, rasgou os campos de futebol do Cruzeirinho, do Boa Esperança, próximos à "Gamboa do Juca" (Rio da "Pouca Saúde"), área do Sítio Conceiçãozinha estabelecendo seu Pátio de Manobras e ramificações férreas com os terminais marítimos de carga.
PONTE FERROVIÁRIA - FERROVIA DE CARGA CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ [ITAPEMA/SP] 1979.
LOCOMOTIVA A DIESEL PUXA COMPOSIÇÃO SOBRE A PONTE FERROVIÁRIA [ITAPEMA/SP] 2010.

Este Ramal Ferroviário de Conceiçãozinha pela margem esquerda itapemense está ligado à uma Ponte Ferroviária, em estrutura metálica, de 1.546,10 m de comprimento, com seções de 50 m e Vão Central Móvel de 46 m e altura máxima de 14 m, permitindo a navegação de barcos de pequeno e médio porte. A meso-estrutura da Ponte férrea, onde foram assentados a bitola mista e o terceiro trilho, foi toda arquitetada em Aço tipo 52 de formato trapezoidal inteiriço, recebendo aditivos externos de cobre e titânio para evitar corrosão. As fundações, semelhantes às da Ponte Rio-Niterói, foram feitas com estacas metálicas, porém recebendo um revestimento anticorrosivo. Uma das maiores do gênero no Hemisfério Sul, construída pela NORBERTO ODEBRECHT. Desde a parte continental santista, cruzando no estuário o Largo de Santa Rita, ao longo da Bocaina até as proximidades do Forte de Itapema, no Bairro homônimo, perfazendo 5,5 Km da Ferrovia de Carga nos limites do Distrito.
VÃO CENTRAL MÓVEL - PONTE FERROVIÁRIA RAMAL CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ [ITAPEMA/SP] 1979.
PONTE FERROVIÁRIA RAMAL CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ TRANSPÕE O ESTUÁRIO SOBRE O LARGO DE SANTA RITA [ITAPEMA/SP] 2004.
PONTE FERROVIÁRIA AO LONGO DA BOCAINA E INSTALAÇÕES DA BASE AÉREA EM ITAPEMA/SP [2012].

O acesso de trens de carga para o Ramal Ferroviário de Conceiçãozinha, com um total de 25,2 Km de extensão de trilhos, a partir do Pátio Perequê (Cubatão/SP), sobrepujando mangues, rios, aclives geográficos, charcos, obstáculos topográficos e a densa vegetação da Mata Atlântica. Além do Túnel Ferroviário sob o Morro das Neves (área continental de Santos/SP), com 981 metros de comprimento, sendo 28 m de talus, 119 m em saprolito bastante heterogêneo, 68 m em rocha decomposta  e  734 m em rocha cã, tendo 45,9 metros quadrados de seção acabada. Incluindo a Ponte Ferroviária perlongando a Bocaina, os trilhos pelo Distrito, o Pátio de Manobras em ITAPEMA/SP. São os dados da PORTOBRÁS/RFFSA - 1972/81.
FERROVIA DE CARGA  CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ CRUZA BAIRROS DO DISTRITO ITAPEMENSE/SP.

Remanescente do II PND (Plano Nacional de Desenvolvimento), onde conquistou prioridades iguais às da Ferrovia do Aço, o Ramal Ferroviário de Conceiçãozinha trouxe os trens da Rede Ferroviária Federal e da Fepasa à margem esquerda itapemense, atendendo assim às necessidades de ampliação do Porto. De forma experimental a Ferrovia de Carga (Conceiçãozinha - Perequê) funcionava desde o ano de 1979, sendo inaugurada oficialmente em Agosto de 1981.
Registra o caderno semanal "Marinha Mercante em Todo o Mundo", do Jornal 'O Estado de S. Paulo', numa matéria de Amaury César sobre o empreendimento da Ferrovia de Carga:
"(...)Até Dezembro de 1979, quando os primeiros trens experimentais alcançaram a área de Conceiçãozinha, haviam sido gastos na obra Cr$ 2 bilhões e 350 milhões [de Cruzeiros], sendo 29,17% investidos pela PORTOBRÁS, 54,17 pela Rede Ferroviária Federal [RFFSA] e 16,66% pelo BIRD. Acrescente-se a esse custo as obras do Pátio construído em Conceiçãozinha, onde foi instalada uma Balança Ferroviária automática para 142 toneladas, para pesagem dos fertilizantes a granel provenientes do Terminal que ali funciona. Só no Pátio há 3,2 quilômetros de linhas com o terceiro trilho, para trens de 1 m e 1,6 metros de bitola.
PÁTIO DE MANOBRAS DO RAMAL FERROVIÁRIO CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ [ITAPEMA/SP] 2017.
PÁTIO DE MANOBRAS FERROVIA DE CARGA DISTRITO ITAPEMENSE/SP [2017].
PÁTIO DE MANOBRAS RAMAL FERROVIÁRIO DE CARGA CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ [ITAPEMA/SP].
DESVIOS NA LINHA FÉRREA INTERLIGAM OS TERMINAIS MARÍTIMOS A FERROVIA DE CARGA [ITAPEMA/SP].

Junto aos seis armazéns de fertilizantes [TEFER], foram implantadas linhas que totalizam quatro quilômetros, além dos quase quatro quilômetros de linhas internas no recém-inaugurado Terminal de Conteineres [TECON].
No projeto do ramal da margem esquerda foram considerados o Terminal de Fertilizantes, que deve a curto prazo movimentar por Estrada de Ferro cerca de dois milhões de toneladas anuais, e o Terminal de Conteineres, que deve absorver, numa primeira fase de operações, 50% dos 110 mil cofres-de-carga a serem movimentados via Santos em 1982.
FERROVIA DE CARGA CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ PERLONGANDO A MARGEM ESQUERDA DO PORTO [ITAPEMA/SP].

Para atender a essa demanda de transporte, o Ramal de Conceiçãozinha foi planejado e construído com um superdimensionamento das estruturas, observando, apesar do terreno acidentado, rampas máximas de 1,3% e raios mínimos de curva de 286 metros, o que permite uma velocidade de segurança de até 60 quilômetros horários nos trens, considerada pela Engenharia Ferroviária como excelente, por se tratar de um leito destinado à carga..." - Detalha ainda a matéria jornalística.
"(...)A ponte tem vãos de 50 metros cada um, e mais um vão central móvel de 46 metros, que sobe 10 metros em relação à parte fixa. Com isso, permite a passagem de barcos com até 14 metros de altura sobre o maior preamar registrado nos últimos 25 anos naquela área. Um sistema eletro-mecânico aciona de forma rápida, a parte elevadiça, completando toda a operação em quatro minutos, ou oito minutos no restabelecimento do tráfego ferroviário..."
LOCOMOTIVA CRUZA A PONTE FERROVIÁRIA DO RAMAL DE CARGA CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ [ITAPEMA/SP].

Concomitantemente em Agosto de 1981, começa a operar o Terminal de Contêineres (TECON), administrado pela CODESP (Companhia Docas do Estado de São Paulo). 596 mil metros quadrados de área, capacidade de movimentação de 2 milhões de TEU por ano. Equipado de Transtêineres sobre trilhos para transbordo dos cofres-de-carga.
Em 1982, tem iniciado novo serviço intermodal entre as duas margens do Porto pela Transitária Brasileira S.A. (Transbrasa), do Grupo Dickinson. A Empresa passou a utilizar a Ferrovia da RFFSA para enviar os contêineres da margem direita (Santos/SP) para o TECON (Terminal de Contêineres), na margem esquerda itapemense do Porto e vice-versa. Obtendo com isso além de uma redução nos gastos com fretes, substancial economia de tempo na movimentação de carga e descarga de mercadorias.
PANORÂMICA DA PONTE FERROVIÁRIA AO LONGO DA MARGEM ESQUERDA ITAPEMENSE DO PORTO [2012].

Nessa oportunidade (Julho de 1982), o repórter Carlos Pimentel Mendes em matéria publicada no Jornal 'O Estado de S. Paulo', pode avaliar e acompanhar a rotina da Ferrovia de Carga Conceiçãozinha-Perequê [site 'Novo Milênio]:
No Ramal Ferroviário de Conceiçãozinha são empregadas Locomotivas de 720/750 HP a diesel, que levam até 16 vagões com contêineres de 1.500 toneladas, ou Locomotivas de 1.800 HP, capacidade para puxar até 26 vagões com contêineres de 2.500 toneladas, considerando-se que cada vagão-plataforma recebe até 3 contêineres de 20 pés, devidamente fixados e escorados contra quedas.
A composição deixa o Pátio de Manobras Piaçaguera (Cubatão/SP), às 12:31 h., rumo à Conceiçãozinha (ITAPEMA/SP) na margem esquerda do Porto, seguindo pelo trecho de vegetação, passa pela localidade dita "Sítio do Pica-Pau", depois deparando-se com o Túnel Ferroviário perfurado no Morro das Neves (Santos/SP), toma a rampa de acesso (Ilha Barnabé) com inclinação de 45 graus transpondo no estuário o Largo de Santa Rita sobre a Ponte Ferroviária defronte à Bocaina. A Ponte Férrea possui um segmento central içável possibilitando a passagem das embarcações por baixo.
VÃO CENTRAL MÓVEL PONTE FERROVIÁRIA RAMAL DE CARGA CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ [ITAPEMA/SP].

A operação de movimentação do Vão Central Móvel (46 m de comprimento e 14m de altura) levou 6 minutos para descer e 8 minutos para subir, incluso o travamento na posição correta através de calços hidráulicos automáticos.
PONTE FERROVIÁRIA DA FERROVIA DE CARGA EM ITAPEMA/SP PASSA POR REPAROS ESTRUTURAIS [DÉCADA DE 1980].
PONTE FERROVIÁRIA DO RAMAL DE CARGA CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ CRUZA DEFRONTE A BASE AÉREA EM ITAPEMA/SP.
PONTE FERROVIÁRIA - PERCURSO AO LONGO DA BOCAINA [ITAPEMA/SP].
A PONTE FERROVIÁRIA DO RAMAL DE CARGA NA PAISAGEM DA BOCAINA [ITAPEMA/SP] 2012.
PONTE FERROVIÁRIA RAMAL DE CARGA CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ MARGEIA A BOCAINA [ITAPEMA/SP] 2004.

Chega a composição ao Pátio da Estação de Conceiçãozinha, às 13:31 h., onde a Locomotiva é desengatada de um lado e a Máquina da CODESP (600 HP, capaz de tracionar 1.200 toneladas) engata de outro, sendo feita a transferência de carga da Ferrovia pelos desvios dos trilhos para os Terminais Marítimos.
LOCOMOTIVA MANOBRA VAGÃO EM TERMINAL DE CARGA DA MARGEM ESQUERDA DO PORTO [ITAPEMA/SP] 1982.

As Estações dispunham de dispositivos de staff. Trata-se de um mecanismo de controle de tráfego ferroviário, que consiste num conjunto de bastões de ferro com sulcos irregulares e o nome de 2 Estações gravado. Levado pelos maquinistas de uma Estação para outra, servem para avisar a Estação seguinte de que a linha vai estar ocupada. Enquanto introduz a peça no dispositivo, o responsável pela Estação informa à Estação seguinte (por telefone) o código da composição que está saindo. Lá, ao receber o sinal, seu colega retira um bastão do dispositivo semelhante para trocar com o maquinista, quando o trem passar. Isso evita que dois trens percorram simultaneamente a mesma linha férrea, o que poderia acarretar uma colisão.
Estimativas que vislumbravam armazéns de carga, silos para 60 mil toneladas de cereais à granel se realizam nos anos de 1980, cujo avanço não parou mais. Terminais de grãos (soja, milho), farelos, açúcar, suco de laranja, foram tomando a paisagem do Porto itapemense com seus grabes (guindastes "cangurus"), esteiras transportadoras, shiploaders, portêineres à lembrar "dinossauros mecânicos", abastecidos pelo Ramal Ferroviário em vagões de carga, ladeando o Distrito.
Maio de 1985, entra em funcionamento o Terminal da Cutrale (Sucocítrico Cutrale Ltda), com 286 metros de cais acostável operando sucos cíticos a granel e polpa cítrica (farelo de laranja).
Inaugurado o terminal da Cargill Agrícola S.A., no ano de 1986, para embarque de comodities: soja, milho, farelos, açúcar.
Com a concessão da infra-estrutura ferroviária a operadores privados, estabelecida entre 1996 e 1999, os corredores de acesso ao Porto permaneceram sob controle de diferentes empresas do setor, responsáveis pela operacionalização do transporte de carga envolvendo os ramais ferroviários da margem direita (Santos/SP) e a margem esquerda itapemense do Porto. O Ramal Ferroviário de Conceiçãozinha-Perequê cedido a MRS Logística S/A, compartilhado por Ferroban (Ferrovias Bandeirantes S/A), Ferrovia Novoeste S.A., Fca (Ferrovia Centro-Atlântica S.A.) e ALL (América Latina Logística).
O RAMAL FERROVIÁRIO DE CARGA CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ ATRAVESSA ÁREA URBANA EM ITAPEMA/SP.

Entre as proximidades do Forte de Itapema e Conceiçãozinha, o leito ferroviário foi assentado praticamente em percurso habitado ou já urbanizado, atravessando bairros a acarretar problemas de convívio com a Ferrovia de Carga em ITAPEMA/SP. A Estrada de Ferro extinguiu patrimônios emblemáticos constituintes do Distrito, o campo de futebol do centenário Itapema F.C., o saudoso Cine Itapema, desapropriou chalés antigos, desalojou tradicionais estaleiros.
A FERROVIA DE CARGA CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ EXTINGUIU PATRIMÔNIOS EMBLEMÁTICOS CONSTITUINTES DO DISTRITO ITAPEMENSE/SP.

Enquanto os trilhos avançavam pelo Distrito portuário, inúmeras ocasiões, o substrato utilizado no assentamento da Ferrovia de Carga, precisava ser reposto pela Empreiteira da obra, pois o morador itapemense se aproveitava ao carregar a terra em carrinhos-de-mão para aterrar os seus quintais. Dormentes serviam como estrutura de chalés e barracos, bancos à frente das residências, fazer pequenas pontes acima das valas de águas pluviais insalubres.
LOCOMOTIVA À DIESEL PERCORRE O RAMAL FERROVIÁRIO DE CARGA [ITAPEMA/SP].

A ampliação do Porto na margem itapemense implantando-se terminais marítimos de exportação e importação, o Ramal Ferroviário de Carga Conceiçãozinha-Perequê deixaria seu rastro. Devido a desatenção da Autoridade Portuária, permitiu a ocupação precária e desordenada de habitações na faixa de marinha do estuário. Consequentemente, terras à beira da linha férrea, trechos da Restinga degradaram-se dando espaço à moradias irregulares junto aos trilhos da Ferrovia de Carga, senão espremidas ao lado dos terminais marítimos em ITAPEMA/SP.
MORADIAS À BEIRA DO RAMAL FERROVIÁRIO CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ [ITAPEMA/SP].
OCUPAÇÃO IRREGULAR NO PERCURSO DA FERROVIA DE CARGA EM ITAPEMA/SP.
O TREM DE CARGA ATRAVESSA O COTIDIANO DE COMUNIDADE ITAPEMENSE/SP.
MENINOS BRINCAM NOS TRILHOS DA FERROVIA DE CARGA [ITAPEMA/SP].

O trem de carga corta o cotidiano das conhecidas comunidades itapemenses, com riscos de descarrilamento de vagões, derrame de produtos, ou mais comumente atropelamento de transeuntes, tendo ocorrido casos de mutilação de membros humanos, acidentes fatais com pessoas e animais domésticos (cães, gatos). Meninos e jovens, como seu brinquedo, inadvertidamente pegam carona ao verem passar a composição ferroviária.
Ao atravessar a área urbana a Ferrovia de Carga cruza em nível, o trânsito de veículos e pedestres no "Pontão das Barcas", causando transtornos naquela passagem, quando da decorrência da grande movimentação de vagões. Embora haja uma passarela ali, a interferência do Ramal Ferroviário no tráfego é notória. De muita serventia foi a instalação da passarela sobre o Pátio de Manobras, no Sítio Conceiçãozinha.
PASSAGEM DE NÍVEL FERROVIA DE CARGA NO "PONTÃO DAS BARCAS" [ITAPEMA/SP].
VAGÕES ATRAPALHAM A PASSAGEM DE PEDESTRES NO "PONTÃO DAS BARCAS" - FERROVIA DE CARGA EM ITAPEMA/SP.
ATUAL PASSARELA NA PASSAGEM DE NÍVEL DA FERROVIA DE CARGA - "PONTÃO DAS BARCAS" [ITAPEMA/SP].
PASSARELA SOBRE O PÁTIO DE MANOBRAS DO RAMAL FERROVIÁRIO DE CONCEIÇÃOZINHA [ITAPEMA/SP] 2011.

O projeto original do Pátio de Manobras do Ramal de Conceiçãozinha, possuía 4 linhas férreas partindo da principal, porém nenhum desvio entre elas, de maneira que para a remoção de um vagão que estivesse no meio de uma dessas linhas, tornava-se necessário usar a linha principal por diversas vezes, interrompendo seguidamente o tráfego de caminhões oriundos da Via Idalino Pinez (Rua do Adubo) na passagem de nível, intersecção conflitante dos modais. Embora tenha sofrido adaptações, considerado um ponto crítico, sujeito a congestionamentos por misturar-se ao trânsito urbano de ITAPEMA/SP. A medida adotada após muitos anos foi um Viaduto por cima do Ramal Ferroviário Conceiçãozinha-Perequê, a segregar o modal rodoviário, do ferroviário. Contudo, o ideal seria este Viaduto transpondo também a Via Santos Dumont, além da Ferrovia de Carga, evitando o conflito dos caminhões com o trânsito urbano do Distrito, mas a obra não contemplou tal solução, ficando aquém de resolver o problema de forma definitiva.
VIADUTO SOBRE O PÁTIO DE MANOBRAS DO RAMAL FERROVIÁRIO DE CONCEIÇÃOZINHA [ITAPEMA/SP] 2013.
O VIADUTO SOBRE A FERROVIA DE CARGA CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ SEPARA O ACESSO DE TRENS E CAMINHÕES À MARGEM ESQUERDA DO PORTO [ITAPEMA/SP].

De maneira geral, o cenário da logística portuária no Brasil é preocupante apesar do crescimento e dos elevados investimentos que vêm sendo feitos, diversos entraves ainda comprometem a competitividade dos portos brasileiros, tais como a baixa integração modal, as deficiências nos equipamentos de movimentação, a complexidade regulatória e as dificuldades nos acessos terrestres e marítimos.
O arco ferroviário do Porto (tendo cerca de 40 Km), que permite a interconexão das diferentes, malhas férreas aos terminais de embarque e desembarque de carga encontra-se sob concessão da MRS Logística.
Para aumentar o fluxo de cargas que chegam e saem do Porto por meio das ferrovias, o concessionário trabalha com pátios de cruzamento em alguns trechos estratégicos de suas malhas, minimizando a dificuldade do trilho único e possibilitando a passagem de um trem, enquanto outro trem espera nesse pátio de acordo com a priorização das concessionárias das ferrovias.
MAPA MALHA FERROVIÁRIA DE CARGA - BAIXADA PAULISTA.

O aumento da participação do transporte ferroviário é importante para que as quantidades movimentadas pelo Porto continuem crescendo, visto que encontra dificuldades para movimentar os milhões de toneladas anuais.
Conforme especialistas no transporte ferroviário, um vagão é capaz de transportar de 80 à 100 toneladas de grãos, isso significa que cada um pode substituir até 4 caminhões, uma composição leva de 6,5 à 8 mil toneladas de mercadorias de uma só vez, podendo retirar das estradas de rodagem 320 veículos de carga. A eficiência dos vagões se dá nos casos em que as cargas ultrapassam 40 toneladas, seja em médias ou longas distâncias para cargas maiores e mais pesadas. Bem como pelo baixo custo de manutenção das linhas férreas. O transporte ferroviário utiliza menor área para a mesma quantidade de carga transportada, uma vez que os trens ocupam menos espaço do que os caminhões, tanto nas vias comuns quanto nos terminais de embarque e desembarque, permitindo aumentar a produtividade das operações dos terminais marítimos e movimentar uma quantidade maior de carga na mesma área de cais.
MARGEM ESQUERDA DO PORTO ENCONTRO DOS MODAIS DE TRANSPORTE DE CARGA [ITAPEMA/SP] 2011.

A capacidade de transporte ferroviário pela margem esquerda itapemense do Porto poderia ser aumentada para até 25 milhões de toneladas anuais, se os terminais tivessem suporte para movimentar toda essa carga trazida em composições ferroviárias. Isto requer investimentos necessários tanto por parte dos arrendatários dos Terminais Marítimos quanto pela Administradora Portuária. A maioria desses comboios transportam cargas a granel, que são descarregadas dos trens nas moegas disponíveis no Porto (margem direita e esquerda), sendo que em alguns casos o processo é lento, baixa quantidade de vagões por hora, o que resulta num gargalo na operação. O restante das composições é carregado de contêineres, as quais normalmente são administradas por operadores logísticos devido aos trâmites aduaneiros.
PONTE FERROVIÁRIA - FERROVIA DE CARGA CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ ÀS MARGENS DO DISTRITO ITAPEMENSE/SP [2012].
PONTE FERROVIÁRIA - MARGEM ESQUERDA DO PORTO [ITAPEMA/SP] 2012. 
FERROVIA DE CARGA CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ - MARGEM ESQUERDA DO PORTO [ITAPEMA/SP] 2010.
RAMAL FERROVIÁRIO DE CARGA CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ - MARGEM ESQUERDA DO PORTO [ITAPEMA/SP] 2012.

Apesar de seu aumento constante desde 1998, quando a quantidade de cargas transportadas pela ferrovia era de apenas 1,6 milhão de toneladas, o transporte ferroviário ainda é reduzido em face da abrangência das malhas ferroviárias com acesso ao Porto, cuja extensão dessas ferrovias atingem uma vasta interligação que inclui as Regiões Sul, Sudeste, os Estados de Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul e o país vizinho, Bolívia.
ANTIGAS LOCOMOTIVAS DO RAMAL FERROVIÁRIO CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ [ITAPEMA/SP] 2017.

A participação das ferrovias na movimentação de carga no Porto, em 2003, atingiu índice de 16%.
Dados de 2004, as ferrovias que atendem o Porto transportavam cerca de 9 milhões de toneladas, equivalente a 13% da movimentação portuária total.
A margem esquerda do Porto (ITAPEMA/SP) movimentava em 2004, quase 20 milhões de toneladas. A capacidade de transporte de cargas ferroviárias era de 17 milhões de toneladas anuais. A PORTOFER indica neste período que a margem esquerda trabalha com grande movimentação ferroviária de carga:
Complexo Soja e Açúcar = 5,508.000 toneladas.
Fertilizantes e Enxofre = 1,427.400 toneladas.
Contêineres = 954.000 toneladas.
Num total de 7,889.400 toneladas.
RAMAL FERROVIÁRIO DE CARGA CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ ÀS MARGENS DO DISTRITO ITAPEMENSE [2017].

Registros da CODESP assinalam o movimento de cargas na margem esquerda itapemense do Porto, através de seus terminais marítimos, oferecendo os seguintes números:
Terminal de Fertilizantes = 2,023.408 toneladas.
Cargill = 6,143.623 toneladas.
Tecon = 8,389.966 toneladas.
Cutrale = 1,029.923 toneladas.
Dow Química = 692.931 toneladas.
Totalizando em carga 19,480.945 toneladas.
A resolução da ANTT 945, de 4 de Maio de 2005, determinou a implantação do regime de direito de passagem para a circulação de cargas na malha ferroviária da MRS Logística, no trecho de 25 Km, Perequê (Cubatão) à Conceiçãozinha. Os valores do direito de passagem pelo ramal ferroviário da MRS, no percurso da margem esquerda (ITAPEMA/SP), em 2005 geravam os seguintes números:
R$ 2,48 por tonelada.
4 milhões de toneladas movimentadas.
Capitalizando 10 milhões de reais em receitas obtidas da movimentação ferroviária.
O ramal ferroviário tem ampliado sua participação no deslocamento de mercadoria entre o Porto e o interior do Brasil. No ano de 2010, as cargas transportadas em vagões somaram 19 milhões de toneladas, representando 19,5% de tudo o que passou pelos terminais marítimos.
Em 2012, levantamentos indicavam que os ramais de acesso ao Porto permitem apenas a passagem de um trem por vez, devido a isso totalizando um número máximo de 18 trens/dia que chegam e saem do Porto, ou aproximadamente 1.120 vagões/dia, resultado do ano de 2011, levando-se em conta os trens de todas as concessionárias. A participação do ramal ferroviário no transporte de carga em 2012, foi de 24%.
No ano de 2015 chegou a 27,5 milhões de toneladas, correspondendo a 24,7% das cargas movimentadas.
A MRS Logística iniciou em 2015, serviço inédito de transporte de contêineres por ferrovia entre as duas margens do Porto (Santos e ITAPEMA/SP). Antes, a transferência de contêineres entre os Terminais dos dois lados do Porto era feita 100% pelo modal rodoviário. A solução não era considerada viável para a ferrovia até então, apesar de ser, em alguns casos, 50% mais econômica.
O mercado é promissor, pois muitos contêineres são desembarcados do navio num terminal, mas a carga é desembaraçada em outro, no caso da importação. O mesmo vale na mão inversa, quando o contêiner é estufado em um local e levado a outro para ser embarcado no navio. Há também o serviço para realocação de contêineres vazios entre os Terminais Marítimos. O percurso é feito porta à porta tendo as instalações desvios de acesso ferroviário que se conectam à malha da MRS.
O principal atrativo do serviço é o custo, mais em conta que o transporte por caminhões, dada a economia da escala. A operação é feita com vagões double stack que tem capacidade de empilhar dois contêineres. A companhia oferece trens diários da margem esquerda para a margem direita em operações que levam, em média, 4 horas.
A FERROVIA DE CARGA CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ ENCONTRA SEU DESTINO EM ITAPEMA/SP [LITORAL PAULISTA].

A malha ferroviária do Porto contribuiu relevantemente para a melhoria e o aumento das exportações de produtos brasileiros.
Nesses seus 38 anos de atividade, a Ferrovia de Carga da margem esquerda (ITAPEMA/SP) ampliou a participação do modal via trens na movimentação de carga. Se visto pelo prisma econômico, o Ramal de Conceiçãozinha é mais um elo da integração ferroviária no desenvolvimento da região.