__________ Itapema, suas histórias... __________

segunda-feira, 31 de maio de 2010

NÁUFRAGOS DA MARGEM ESQUERDA


Navio 'AIS GIORGIUS' durante incêndio, já na margem esquerda (VTE. CARVALHO/SP), em Janeiro de 1974.

Um dos acidentes portuários que as duas margens compartilham, foi o incêndio no navio a motor, de bandeira grega 'AIS GIORGIUS', em Janeiro de 1974.
Sob o comando do Capitão Marino Moatsos, com 26 homens de tripulação, provindo da Europa, o 'AIS GIORGIUS' entrou pela manhã do dia 26 de Dezembro (1973) no porto, quando atracou no cais do armazém XXX.
O cargueiro havia sido construído na década de 50 para a Armadora sueca 'Brostom' e consignado a Agência Marítima 'Oceanic Shipping'. Transportava em 5 porões, latas de leite em pó, óleo de pinho, champanhe e milhares de sacos de produtos químicos (resina sintética, nitrato puro, fertilizantes, tambores com manganês-metálico) num total de 67.000 volumes.
O 'AIS GIORGIUS' arde em chamas nas imediações da PRAINHA, junto ao "Paredão", em ITAPEMA (1974).

Era 08 de Janeiro de 1974, o navio encontrava-se atracado agora no armazém XXXII quando teve início o incêndio. Vejamos trecho do relato publicado no blog 'Universo Portuário', por Laire Giraud, extraído do livro 'Sinistros Marítimos na Costa do Estado de São Paulo':
"Paradoxalmente o sinistro não se iniciou nos porões do navio, mas numa galera ferroviária (vagão-aberto) pertencente à CDS (vagão nº 40) que se encontrava carregando ao longo ao longo do AIS GIORGIUS... (...) Tal fato provocou o aquecimento externo do casco do porão do navio grego onde estavam estocadas os restantes 1.200t. de nitrato de sódio, o porão nº 4 sendo o primeiro afetado..." - O fogo propagou-se rapidamente, eram 22:30h. As chamas atingiram 50 metros de altura e toda Itapema correu pra ver, durante anos na minha infância ouvi relatos do clarão naquela noite.
Catraieiros atuaram como salva-vidas durante o incêndio (que matou um tripulante da Turma de Salvamento). Aqueles que faziam o plantão noturno acudiram resgatando tripulantes, estivadores e conferentes que se atiravam no mar para fugir das chamas. ( na foto acima (1974),  as explosões e as chamas no 'AIS GIORGIUS' iluminavam a noite.

Os restos calcinados do 'AIS GIORGIUS' após o sinistro. (1974)  

Para evitar um desatre maior, pois as chamas ameaçavam outros navios e instalações portuárias, as autoridades resolveram desatracá-lo para a margem esquerda utilizando os rebocadores 'Saboó, 'Marie', 'Neptuno' e 'Plutão' em meio a explosões e gigantescas labaredas que se sucediam, vindo o 'AIS GIORGIUS' a encalhar nas proximidades da "Prainha", junto a Torre de Transmissão de Alta Tensão da Usina de Itatinga (no final da Rua Nova), também conhecido como "Paredão", devido ao antigo atracadouro ali construído. Queimou durante 70 horas seguidas, ficando  semi-submerso e de sua estrutura apenas a proa estava intacta.
Carcaça do 'AIS GIORGIUS' encalhada tempos depois na altura da Estação das Barcas, anos 90 (ITAPEMA/SP).

Por duas décadas ele prestou-se as estripulias de moleques audazes. Indagado particularmente em uma entrevista para a Revista 'Ao Vivo', ano 2, Edição 7 (Out/Nov/Dez de 2007), Herbert Viana (integrante da Banda 'Paralamas do Sucesso') respondeu ao repórter Thiago Santos:
"(...)Porque eu tinha morado, quando era criança, na Base Aérea (de Guarujá - Itapema - SP), ou seja, era do lado de cá do Porto. Em frente à minha casa tinha ainda um resto de mato e o canal, aí você via o porto do outro lado, a movimentação, a chegada dos navios de carga e de passageiros... E mais ou menos em frente à essa Vila Militar, da Base Aérea, tinha um navio encalhado (AIS GIORGIUS) que pra gente naquela época era o grande desafio de quem conseguia nadar até aquele navio, e dali subir na parte que não estava submersa. E, enfim, pular na água da maior altura possível... (...)Enfim, pra gente naquela época era um fascínio, difícil de descrever..."
 'AIS GIORGIUS' naufragado na margem esquerda do Distrito de Vicente de Carvalho (anos 90).

Totalmente inutilizado foi vendido para desmanche, todavia:
"(...)Tal coisa porém nunca acontecia pois no processo de reboques os cabos que o prendiam à arrebentaram (a proa), durante uma tempestade de vento o AIS GIORGIUS foi encalhar, levado pela correnteza na altura da Estação de Barcas de Vicente de Carvalho, em posição submersa e perigosa a navegação..."




Outro navio, o 'AUSTRAL' (foto à esquerda), anos antes (1967), numa circunstância parecida de passagem de ano, fora vítima de sinistro no Porto.
O cargueiro a motor 'AUSTRAL' atracou junto ao armazém XXV, no dia 27 de Dezembro de 1966, procedente do Chile com carga geral de 3.109 toneladas de salitre. A tripulação total era de 45 homens, comandados por Umberto Cárdenas Hurriaga.
Às 14:28min, do dia 02 de Janeiro de 1967 (segunda-feira) irrompeu um incêndio no porão nº 4. O foco teve início em uma lingada de sacos de salitre que estava sendo descarregada. Alguns sacos em chamas caíram no interior do porão, se propagando assim o fogo por toda a carga. Em poucos minutos as labaredas atingiram cerca de 30 metros de altura, fato este referido certa vez por Seo Carlos, antigo morador do Itapema.
Combateram arduamente o incêndio com jatos d'água sobre o convés do cargueiro, os rebocadores 'Saturno', 'Saboó' e 'Sabre'. Três tripulantes da embarcação de bandeira chilena feriram-se durante o sinistro.
Como fosse difícil extinguir as chamas, o 'AUSTRAL' foi desatracado e rebocado até Conceiçãozinha. Sucessivas explosões fizeram com que o incêndio se alastrasse atingindo outros compartimentos do navio e comprometendo sua estrutura, com entrada de água nos porões, levando-o a adernar consideravelmente a bombordo.
O navio 'AUSTRAL' à deriva na margem esquerda, próximo de Conceiçãozinha (1967), enquanto os rebocadores combatem o fogo.

O incêndio seria totalmente debelado por volta das 6 horas da manhã, do dia 03 de Janeiro. Entretanto o fogo voltou a arder na manhã do dia 04, tornando mais crítico o estado do navio. No final da tarde daquele dia o adernamento acentuou-se e a popa já estava ao nível d'água.
O 'AUSTRAL' ficou praticamente destruído, dele restando somente o casco e um monte de ferros enegrecidos, após isso levaram-no para as imediações da Bocaina, onde foi desmontado pela empresa Grieves. 

sexta-feira, 21 de maio de 2010

TPI - TEATRO POPULAR DE ITAPEMA


LOGOTIPO DO TPI - TEATRO POPULAR DE ITAPEMA (fund. em 19/11/1988)

No final dos anos 80, eu iniciava minha trajetória no TPI - TEATRO POPULAR DE ITAPEMA. Aliás diga-se de passagem, um dos poucos grupos com proposta de Teatro sério que se soube nesta cidade. Prevaleciam peças litúrgicas (Autos, Mistérios), alguns dramas históricos (cangaço, abolição da escravatura etc) e algumas comédias de costumes, picarescamente encenados.
Fundado em 19/11/1988, numa sala da Escola José Cavariani. Era formado por jovens e iniciantes artistas, que viam no Teatro uma maneira de contribuir para a melhoria da sociedade. O TPI tinha como objetivo apresentar espetáculos a preços populares, com apuro e todo aparato técnico (luz, som, cenário, figurino, etc), que de alguma forma refletissem a realidade das pessoas.
[Urbain G. como Professor - Aquele que diz sim & Aquele que diz não, de Bertold Brecht]

Em quase 5 anos de existência levou à cena onze espetáculos (entre textos infantis e adultos) e recebeu seis peças teatrais convidadas das cidades de Santos, São Paulo e Guarujá, tendo um público estimado por volta de 4.300 espectadores. Foi o primeiro na cidade a montar textos dos grandes nomes da dramaturgia universal (DUERRENMATT, IONESCO, ARRABAL) e utilizar-se do Método Stanislavsky para preparação de seus atores. Outro fato inovador foi a manutenção de temporadas regulares dos espetáculos encenados e a excelência do repertório, incluindo autores nacionais (ROBERTO FREIRE, PEDRO BANDEIRA, CELSO LUÍS PAULINI, dentre outros). O TPI apresentou-se ainda em escolas da Capital (SP), na Universidade de São Paulo (USP) e também em festivais de Teatro da região.
'DESIMBUCHA DELAID'S' (1990) TPI - ao centro URBAIN G. como jovem oprimido.
Teatro Popular de Itapema - 'O DEFUNTO', de Rene de Obaldia (1989) - à direita URBAIN G. no papel de Julie.
TPI - 'AQUELE QUE DIZ SIM & AQUELE QUE DIZ NÃO', de Bertold Brecht (1991) - à esquerda baixa URBAIN G. (Professor).
 Teatro Popular de Itapema - 'DIÁLOGO NOTURNO DE UM HOMEM VIL', de Friedrich Duerrenmatt (1993) - Direção: URBAIN G.

Preocupação constante foi a atuação política. Durante a Constituinte Municipal de 1990, o Teatro Popular de Itapema promoveu três Intervenções Teatrais de Rua inspiradas no 'Teatro do Oprimido', de Augusto Boal e dirigidas por mim, Urbain G. Que resultou em manifestações teatralizadas sobre a condição de vida do munícipe versus o jogo político, o monopólio e a precariedade do serviço de ônibus, e desfecho com o enterro simbólico da Câmara de Vereadores.
INTERVENÇÃO TEATRAL NA PRAÇA 14 BIS (1990) TPI - "O trabalhador sob as amarras da política local. Para Ele uma marmita de bosta, enquanto 'Ernesto Paga-mais' enchia um pinico de dinheiro." - Direção: URBAIN G.
INTERVENÇÃO TEATRAL NA AV. THIAGO FERREIRA (1990) TPI - Inspirados por Augusto Boal, crítica contundente à politicagem, contra o monopólio da Viação Guarujá. - Direção: URBAIN G.
 PROTESTO E INTERVENÇÃO TEATRAL PELAS RUAS DE ITAPEMA (1990) TPI - Féretro e enterro da Câmara Municipal de Vereadores. - Direção: URBAIN G.

São desses idos: Lamira Vieija (A LIÇÃO), Lu Fagundes (AQUELE QUE DIZ SIM e AQUELE  QUE DIZ NÃO), Osvaldo Jr. (ZOO STORY), Elson Maceió (INTERVENÇÕES TEATRAIS DE RUA), Rogério Martinelli (DIÁLOGO NOTURNO DE UM HOMEM VIL), Nalva Cardozo (QUARTO DE EMPREGADA), Luiz de Assis Monteiro (A TRILOGIA DO AMOR) e grande elenco.
CARTAZ CONFECCIONADO PELO TPI PARA COLAGEM NOS POSTES DE ITAPEMA.
FILIPETA UTILIZADA PELO TEATRO POPULAR DE ITAPEMA PARA DIVULGAÇÃO DE SEU ESPETÁCULO.
URBAIN G. atuou e dirigiu espetáculos do TPI - Teatro Popular de Itapema/sp.

Ocasionalmente, após os ensaios ou apresentações costumávamos espairecer nas noitadas do "calçadão" da Thiago Ferreira. Discutia-se Stanislavsky, Anarquismo, a experiência brechtiana, o papel social do Artista. Enfim, aquilo que nos movia... A charrete perdera o condutor conforme Raul Seixas autorizara imprimir, mas nós tínhamos a pretensão de conduzir a história de Itapema.
Durou até Maio de 1993 o TPI, quando deu por encerrada suas atividades. Em 2003 houve uma tentativa de retomada da experiência teatral, desta feita malfadada.
Animação de Festa 'A FARRA DO BOI' (1992) Teatro Popular de Itapema - URBAIN G. como Brincante.

sábado, 15 de maio de 2010

LYDIO MARTINS CORRÊA - poeta itapemense

"(...)Quantas vezes relembro este Itapema 
Dos tempos idos, barca a dois tostões,
Daqueles priscos tempos dos balões,
Da vida boa, sem nenhum problema..."

"(...)O Itapema é terra onde eu vivi
Quase toda extensão da minha vida;
Adoro este lugar pois foi, aqui,
A terra que me deu toda acolhida..."

É deste modo inspirado que Lydio Martins Corrêa refere-se nos seus versos d'alma ao Itapema, hoje distrito de Vicente de Carvalho. Parte de sua poesia é um passeio no velho Itapema. Por vezes ufano, bucólico, retrata a paisagem da mata inculta: o mangue, "a vargem grande cobiçada" coberta de capinzais alagados, xaxins, a revoada de vagalumes no rincão oculto. Detém seu olhar na expansão comercial dos bananais (Pae Cará, Vila Áurea), depois o loteamento destas áreas. Os sítios, o bambuzal da Conceiçãozinha, o movimento das embarcações no estuário servem de cenários à sua criação. Fala-nos da gente que engrandecia as paragens à noroeste da Ilha.
"(...)Conceiçãozinha... Imensos bananais
Dilatavam-se em todas direções,
Terras planas, talvez de aluviões,
Cobertas de xaxins e capinzais..."


"(...)O que tu sentes, Celso, é nostalgia
Da Bocaina saudosa, sempre calma,
O tempo, ali, parava e dava à alma,
Motivo de beleza e de alegria..." 
                                                                                                                    
                                                                       LYDIO MARTINS CORRÊA AOS 20 ANOS.
Certa angústia detecta as transformações do vilarejo que havia próximo ao Saco da Embira. A perda da inocência e o compromisso com a subsistência. O tempo que se esvai inexorável. E seu desgosto pela invasão desordenada. Que para ele, trouxe o vício, furtos e as mazelas sociais.
"(...)Mas tudo se transforma, é o progresso
Que se vai infiltrando, tem acesso
Na vida do seu povo, humilde gente,..."
"(...)Tudo acabou, jamais vai vê-la um dia;
Isso que tens na mente ardente e incalma
Vai, aos poucos, cedendo e alcança a palma
Junto do teu lirismo e da poesia..."


CAPA DO LIVRO PUBLICADO EM 1984.
Lydio Martins Corrêa dá nome à avenida que leva ao bairro de Morrinhos. Nasceu no dia15 de Julho de 1909, na cidade de Santos-SP. Filho de Joaquim Martins Corrêa e Aida da Silva Corrêa, foi o segundo filho de uma prole de 21 irmãos.
Na juventude praticou diversas modalidades esportivas. Como boxe, arremesso de peso e dardo, salto com vara e levantamento de pesos. Ganhou inúmeras medalhas que guardava com muito orgulho.
Começou a trabalhar cedo o que dificultou-lhe os estudos. Conseguiu estudar até o 3º Ano do Curso Comercial, no colégio Liceu São Paulo, em Santos.
Por muitos anos foi Torneiro Mecânico com oficina própria, fabricando peças específicas para a área naval. Adquiriu Carteira Marítima, de 1º Maquinista, possibilitando-lhe trabalhar em diversos navios mercantes como Chefe de Máquinas.
Em 1931, casou-se com Eliza Morrone Corrêa, com quem teve 5 filhos. 
Era também amante da música, tocava saxofone e clarinete. Aos domingos apresentava-se no Salão de Bailes do bairro da Bocaina.
LYDIO MARTINS CORRÊA E A ESPOSA ELIZA EM 1974.

Político militante foi Presidente da Câmara Municipal de Vereadores de Guarujá, no período de 1949 à 1954 (foto ao lado), consideravam-no grande orador e excelente redator. Se tornou célebre um discurso seu na Câmara defendendo a utilização de maiôs nas praias da cidade. Pois, aventava-se a possibilidade de proibição nacional, segundo vontade do Sr. Jânio Quadros.
Poeta cônscio escreveu sonetos e poemas, alguns por solicitação de pessoas amigas. Como se pedissem a Lydio que desse voz aos seus sentimentos, e assim pudessem exprimí-los através dele. Também outros tantos em homenagem à pessoas queridas. Fez inspiração da sua convalescença tendo sido socorrido ao Hospital Santo Amaro. Na madrugada do dia 13/04/1979 compôs no escuro o soneto 'No hospital'. Teve como referências literárias Martins Fontes, Castro Alves e J.G. de Araújo Jorge.
Soube manifestar como poucos o imaginário itapemense, sendo o primeiro a fazê-lo de forma poética.
"(...)Do Pai-Cará sempre guardei lembrança,
Os Backheuser: o velho Odil também,
Reminiscências, tempo de criança,
Barca a vapor, locomotiva, trem..."
Seu único livro publicado após sua morte (em 09/Janeiro/1983), 'VERSOS D'ALMA' foi editado em Junho de 1984 em colaboração com a Câmara Municipal de Vereadores de Guarujá.  

sábado, 8 de maio de 2010

SANTO AMARO, Padroeiro da Ilha



Uma tempestade daquelas formou-se atrás das montanhas. Ainda assim a primavera de 528 d.C, na Itália permanecia esplendorosa. O jovem romano Maurus, monástico Amaro (discípulo de Benedito de Núrsia, o regrado São Bento) retornava de sua meditação das Santas Escrituras, pelas encostas do Mosteiro de Monte Casino. Também aprendia muito lecionando na Escola de Jovens anexa ao mosteiro. Já revelara-se seu ofício  e pretendia sair pelo mundo evangelizando.
"Por que sois tímidos, homens de pouca fé? Esperais tranquilos as bençãos sobrevindas. Pois no senhor jamais perecerás..."
Nisso vinha na estrada um soturno carroceiro.
- Ô, moço Mauro... Vou pegar mau tempo pelo caminho.
- Não te aflijas. Temerário é o caminho que conduz para a vida, mas Cristo vai adiante... A chuva apenas há de lavar um pouco da nossa imundície.
- E nem atrasar posso...
- Disse o Senhor que a chuva caiu, transbordou o rio, sopraram os ventos e assolaram com ímpeto uma casa, que não ruiu, porque fora edificada sobre a rocha. - Pensativo o carroceiro tangeu os bois.
SANTO AMARO IGREJA DE ITAPEMA/SP - BAIRRO JARDIM CONCEIÇÃOZINHA[2014].

De repente por entre as árvores do bosque ouviu um pedido aflito de socorro. Era o velho mestre São Bento que o chamava, pois o noviço Plácido caíra no Lago Claudiano quando fora encher a bilha.
Amaro segurava a batina acima dos joelhos, afim de que corresse melhor em direção aos gritos. À beira do lago viu o irmão noviço que afogava-se pelo peso do hábito. Num átimo atirou-se em ajuda dele. Quando abaixou, o noviço desesperado agarrou-se ao crucifixo que rompeu-se indo parar no fundo da água... Voltou-se em direção à margem, onde São Bento olhava a cena atônito. Foi então que Amaro percebeu andar sobre a água.
- Não é chegada tua hora. Deus tem um propósito santo para vós. - E trouxe o rapaz pela mão.
- Sois mesmo um Apóstolo de Cristo! - Reparou São Bento embevecido ao ver Santo Amaro retornar à margem plácida.
PROCISSÃO DE SANTO AMARO POR RUAS DE ITAPEMA/SP[2008].

Nascido Maurus Aba Cupacê, em 493 d.C (final do século V), era filho do Senador romano Eutíchio, de origem patrícia e Sra. Júlia.
Seguidor da Ordem Beneditina, desde os 12 anos de idade, difundiu na Gália (França) a Regra de São Bento, o que executou antes da metade do século VI. Fundou ainda o Mosteiro de Granfeuil (Saint-Maur-Sur-Loire). Sucedeu São Bento em Subiaco, quando este foi para Monte Casino. Suas principais virtudes eram a castidade, humildade, caridade e obediência. Seguindo à risca as exigências da vida monacal, "ora et labora". 
Até seus últimos instantes em 15 de Janeiro de 565 d.C (72   anos) lembrava-se daquele dia milagroso e de como a escritura cumprira-se.
IGREJA CATÓLICA SANTO AMARO EM ITAPEMA/SP - BAIRRO JARDIM CONCEIÇÃOZINHA.

No Distrito de Vicente de Carvalho [ITAPEMA/SP], a igreja em devoção exclusiva ao santo (iniciada no final da década de 1980), oriunda das Comunidades Eclesiais de Base, fica no Conjunto Habitacional Santo Amaro (BNH) - Jardim Conceiçãozinha. O Santo beneditino representado de Abade, com um livro e báculo pastoral ou empunhando um crucifixo,  é também considerado o Padroeiro dos Transportadores. 

[Santo Amaro - imagem 1885]

A primeira Capela construída na Ilha de Guaibê, tendo Santo Amaro como orago data de 1544 e teria sido erguida por José Adorno, num sítio alto (sesmaria de Estevão da Costa) próximo a Fortaleza da Barra Grande. 
Na Vila de Santo Amaro, intentada por Jorge Ferreira, onde se faz uma enseada fronteira à Ilha do (Pombeva), no ano de 1559, José Adorno e sua mulher Catarina Monteiro fundaram a Capela dedicada a Santo Amaro. Entretanto, o povoado inicial não prosperou, a Capela ruiu e as Alfaias foram entregues ao Almoxarife, em 24 de Setembro de 1576.
Outra imagem histórica remanescente (provavelmente a mesma de 1885) que se encontrava na Capela da Fortaleza da Barra Grande de Santo amaro, devido a negligência habitual da Sede Balneária, foi levada sob custódia ao Museu de Arte Sacra de Santos. Um verdadeiro pecado histórico. Segundo estudos mede 1,06 m e possui decorações em ouro sobre fundo preto.

sábado, 1 de maio de 2010

A FEIRA "DO ROLO" EM ITAPEMA (SP)

FEIRA "DO ROLO", NO FINAL DA RUA JOANA DE MENEZES FARO (ANTIGA RUA OLIVEIRA) EM ITAPEMA - SP.

Domingo... Na tradicional Feira "Do Rolo", ali no fim da Joana de Menezes Faro ajuntam-se malandros, ambulantes, cantores e apetitosas dançarinas, religiosos messiânicos, artistas de rua, ciganos, desvalidos da sorte e os que a revertem ao seu favor. Espalhadas em lonas pelo asfalto, nas barracas, bancas, todo tipo de tralha velha e inusitada. Mas não só: ferramentas, artigos pirateados, revistas e filmes pornográficos, aparelhos eletrônicos semi-novos. Enfim, o que se prestar a ser convertido em moeda corrente.
VISTA DO ALTO DA FEIRA "DO ROLO", QUE ACONTECE AOS DOMINGOS NO DISTRITO DE VICENTE DE CARVALHO [ITAPEMA/SP].
UMA TRADICIONAL BANCA DA FEIRA "DO ROLO" [ITAPEMA/SP].

É ponto de troca e entretenimento dos itapemenses à volta dos cantadores embolados no desafio:
"Se sirva tá mesa farta... " - Castiga o embolador seu pandeiro, dando início a peleja.
"- É de comê eu traço!" - Resposta o parceiro repetindo o mote.
"- Tem galinha da Angola..."
"- É de comê eu traço!"
"- E carne de caçarola..."
"- É de comê eu traço!"
"- Vai leitão à espanhola..."
"- É de comê eu traço!"
"- Tua mulé só de caçola..."
"- É de comê eu traço!" - Responde inadivertidamente.
"- Do teu pai fritei as bola..."
"- É de comê... Epa, epa! Pera lá, Poeta. Assim, você tá com fuleragem..."
ARTISTA DE RUA APRESENTANDO-SE NO ESPAÇO DA FEIRA "DO ROLO" [ITAPEMA/SP], COM O NÚMERO "ARO DE FACAS".

Sobre as bancas de roleta popular, Manézinho lança a sorte na expectativa de transformar os seus caraminguados, em quem sabe, noutras doses mais de cachaça ao fim da tarde no Forró  do Bico Doce...
- É R$ 2,00 o jogo. Rodô... Fez praça! - A palheta do eixo corre ligeira. - Feito!!
- Disgrama!
- Oí, não casô onde falei...
- Deu banca! - O crupier sai recolhendo as notas e as ilusões desfeitas na realidade dali por diante. 
Basta formar outra aglomeração para apresentar-se o sujeito que se arrisca no aro de facas, propalando as virtudes curativas da banha de peixe-boi da Amazônia...
- Arrepare... Pra mim fazê esses movimentos tem que tê o corpo resguardado. - E numa mistura de Kung Fu e Capoeira vai realizando seu mise-en- scène. - Então, o companheiro que a patroa reclama da disposição dele, porque não guenta o vai-e-vem. O sinhô que anda de chinelo, pois não consegue amarrá o cadarço do sapato... Eu tô trazendo lá de cima, um potente remédio dos índios... 
 BRINQUEDOS ANTIGOS E USADOS SÃO ARTIGOS ENCONTRADOS NA FEIRA "DO ROLO" [ITAPEMA/SP].

Aqui e ali uma maneira bem peculiar de se fazer comércio...
- Quanto custa esse celular aí? - Perguntou o outro apontando um aparelho antigo na lona.
- Vintão.
- 20!?... Quanto você me dá nesse meu?
- Um real.
- Um real!? Contigo não faço negócio nunca.
- Sai fora, malandragem!... Qué de graça?
Algumas vezes transações malfeitas no meio da semana são resolvidas no braço. 
- Devolve o "barato", pilantra! - E ali discutido as pendências.
FEIRA DO "ROLO" [ITAPEMA/SP] VENDE-SE DE TUDO QUE SE PRESTAR A SER CONVERTIDO EM MOEDA CORRENTE. 

Lá adiante noutra barraca...
- Pode um negócio desse?... O camarada queria pagá 5 paus neste rádio que eu te paguei 15!  - Indicava o aparelho escangalhado em cima da banca.
- Manda comprá no shopis! - Arrematou sonsamente o esperto, certificando o antigo negócio.
- Taí, mas não vendo.
Por todo canto é observar com sutileza o movimento... Aproveitando o tumulto numa barraca de relógios, dois meliantes encostam fingindo-se honestos compradores. Apanham a mercadoria examinam. Com a distração do camelô, o larápio passa o Citizen para o cupincha atrás dele e saem sem despertar suspeita.
NAS BARRACAS DA FEIRA DO "ROLO" ENCONTRA-SE TODA SORTE DE MERCADORIAS: FERRAMENTAS, APARELHOS ELETRÔNICOS SEMI-NOVOS E TODO TIPO DE TRALHA INUSITADA [ITAPEMA/SP].

Pro malandro Domingo é dia de expediente...
Mingau aplicava seu mais engenhoso golpe. A artimanha consistia em entregar os documentos da sua bicicleta a um parceiro. Ao ser vendida para um incauto, concluído o "rolo" ele sumia. O comparsa instantes depois reclamava o roubo ao comprador em meio à muvuca, solicitando que entregasse a "magrela", mediante apresentação dos  documentos.
- Mesma marca, cor... Tá vendo, boy, é minha. Quero vê a numeração. - O rolo estava formado.
Amedrontado o comprador devolvia amargando o prejuízo. Mingau e seu comparsa dividiam os lucros à beira dos trilhos da ferrovia.
FINAL DA FEIRA "DO ROLO", JUNTO À MALHA FERROVIÁRIA DO PORTO (MARGEM ESQUERDA) - DISTRITO DE VTE. CARVALHO [ITAPEMA/SP].

Há quem diga que foi da reunião de uma dezena de conhecidos, em meados dos anos 70, que se encontravam para beber, jogar conversa fora e consequentemente desencalhar coisas usadas, dando ao Itapema uma das suas manifestações mais populares e característica.