__________ Itapema, suas histórias... __________

domingo, 13 de agosto de 2017

ARISTIDES, migrante da terra itapemense




Aristides Inácio da Silva [imagem ao lado], pai de Luiz Inácio "LULA" da Silva. Trabalhou no cais do Porto santista durante mais de duas décadas. De origem pernambucana, Ele seria somente mais um esquecido Estivador que carregou sacas de café pelos armazéns do Porto, caso um dos seus filhos (o Presidente Lula) não se tornasse uma figura ilustre no meio sindical e político do Brasil.
Em Setembro de 1945, Aristides Inácio da Silva acompanhava a crescente migração nordestina de trabalhadores para o Sudeste brasileiro, à procura especialmente do Estado de São Paulo e na região da Baixada Paulista, o Porto de Santos. Aconselhado por conhecidos resolve ir para a cidade santista, no Litoral de São Paulo, onde teria uma chance de emprego como Estivador. Um trabalho de acordo com suas capacidades físicas, e para seu padrão, muito bem remunerado. Além do mais, serviço braçal, carregar peso, era quase tudo o que a cidade grande poderia oferece para um cidadão analfabeto.
Ainda no agreste de Pernambuco (Caetés), Aristides, pequeno proprietário de terra, havia desposado Eurídice Ferreira Melo (carinhosamente conhecida como Lindu), de quem já tinha 7 filhos. O homem que Lindu amava, porém, não matinha fidelidade no casamento. Formado na cultura machista de sua época, orgulhoso de sua masculinidade, ele não deixava de cobiçar outros "rabos-de-saia". Sem sequer imaginar as escapulidas do marido, Eurídice cuidava dos filhos devotando carinho. E como suas obrigações eram muitas, acabou por aceitar a sugestão de que uma prima, com cerca de 13 anos, ajudasse no trabalho doméstico. Valdomira Ferreira de Góis (apelidada de "Mocinha"), era uma adolescente formosa, de olhos castanhos.
Logo pegou prática nos afazeres da casa. A admiração que "Mocinha" tinha por Lindu tanto quanto por tudo o que pertencia à ela, inclusive seu esposo Aristides, crescia a cada dia. Difícil prever que a decisão de Eurídice ao aceitar a ajuda da prima Valdomira terminaria numa história típica de folhetim. A chegada de "Mocinha" invés de ser banal, provocou uma situação que mudaria sua vida e de toda a família de Lindu.
É impossível reconstruir a estória novelesca em detalhes. Mas o fato, é que Valdomira Ferreira de Góis e Aristides Inácio da Silva se tornaram amantes. Não se denota o quanto ele insistiu neste romance. Ou se foi "Mocinha", quem decidiu conquistá-lo. O que se sabe, é que naquele ano de 1945, Eurídice e Valdomira estavam grávidas ao mesmo tempo, do mesmo homem. "Mocinha" no começo da gestação, entretanto Lindu, bem buchuda, não desconfiava de nada.
As dificuldades de trabalho, bem como das condições de sobrevivência desalentadoras, tendo a esposa e a amante esperando filhos seus, Aristides repentinamente decidiu partir rumo a São Paulo. Assim, em Agosto de 1945, vendeu seu cavalo e disse para Eurídice que dentro de poucos dias subiria no primeiro pau-de-arara em direção à cidade grande. O motivo, ele alegava, era a seca. Não tinha jeito de plantar, manter um rebanho. Iria ganhar a vida no Sudeste, e de lá enviaria dinheiro para o sustento da família.
Fazia um dia enevoado sob o sol árido, Aristides Inácio da Silva fechou sua mala de couro remendado. Os olhos de Lindu transbordaram do pote, seus filhos enfileiraram-se na soleira da casa, tentando decifrar aquele evento incompreensível. A esposa observou Aristides sumir na poeira da distância. Agora estava só, o filho Luiz Inácio ("Lula") na barriga, o qual nasceria dali dois meses... Poucos quilômetros adiante, embaixo da sombra de um imbuzeiro à margem da estrada, Aristides encontrou Valdomira ("Mocinha"). Fizeram hora ocultos na vegetação do Sertão, nisso caminharam juntos até a venda de onde sairia o pau-de-arara e partiram. Primeiramente para a capital Recife e depois a jornada marítima até São Paulo. A viagem precária anunciava ao casal recém-amasiado, que seus dias não seriam fáceis. Rememora Valdomira Ferreira de Góis:
"(...)Vim com o pai dele [Lula] para São Paulo. Eu vivia lá sozinha, sem pai. Não conhecia a família de Aristides até minha mãe se mudar para lá, onde foi trabalhar de alugada. Eu não pensava nada naquele tempo. Ele não falou nada pra mim. Mandou uma mulher perguntar se eu queria ir embora mais ele. Eu achei que era pra vir trabalhar pra cá. Aí vim. Tinha uns 16 nos, era mocinha. Fugimos de noite. Fugi porque não pensei em nada..." - Eurídice sempre fora boazinha, prima de "Mocinha" por parte de pai. Seu tio era pai de Lindu. Valdomira vivia e comia na casa dela porque a mãe trabalhava lá, conforme diz numa entrevista, e acrescenta.
"(...)Lá no Norte, o pai do Lula nunca falou nenhuma besteira para mim. Quem me iludiu para vir foi a Alzira, me chamou quando vinha da escola: "O Aristides perguntou se você quer ir pra São paulo mais ele." Ele sofreu por minha causa. Eu era de menor. Ele foi preso em Recife, não ficou comigo. Eu fiquei com umas meninas num hotel. Ele mentiu que eu era irmã dele, mas os documentos não marcavam. Aí arrumamos uma passagem de navio pra ir embora pra Santos. Quando nós embarcamos no navio foi a mesma coisa. Eu fiquei no albergue e ele preso, lá no Rio de Janeiro. Depois ele ficou livre. Aí não me separei dele não, ficava chato ficar sozinha por aqui. Se voltasse para o Norte iam falar mal de mim. Então fiquei..."
ITAPEMA/SP NA MARGEM ESQUERDA DO PORTO [BAIXADA PAULISTA] 1939.

Ao chegar na região da Baixada Paulista para trabalhar no Porto de Santos, estes migrantes nordestinos compulsoriamente abrigavam-se em áreas urbanas mais baratas, com aluguel menos caro, de forma provisória nos quintais de parentes, buscando se estabelecer. ITAPEMA/SP, do outro lado do Porto, na margem esquerda da Ilha de Santo Amaro, apresentava-se como opção de moradia. Sua localização defronte a zona portuária, serviços regulares de transporte com as cidades do entorno e oportunidade de fácil habitação, possibilitava à massa trabalhadora permanecer e empregar-se na atividade laboral.
Inesperadamente naqueles primeiros momentos de estadia, Aristides descuidado sofreu um acidente. Uma lata enferrujada rasgou seu pé descalço, atingindo o osso. Caiu doente, o diagnóstico da Santa Casa de Misericórdia seria tétano, a infecção que surgiu no ferimento quase o derrubou para sempre.
Aristides era ensacador de café no Porto de Santos, exercendo a profissão de estiva como avulso. No local de trabalho faria amizade com Ari da Silva Souza, empregado da Companhia Docas, mestre-caldeireiro e inventor de ferramentas de utilidade portuária, que abrigou o migrante nordestino no porão de sua casa por quatro dias quando o amigo necessitou.
Contudo, passada as agruras iniciais para os amásios, Aristides providenciaria residência num típico chalé itapemense, na Rua Minas Gerais, Bairro Vila Alice, vivendo maritalmente com Valdomira Ferreira de Góis, a formar uma segunda família. Pretendia uma situação financeira mais estável, enfim viver do seu trabalho e ganhar a vida.
RUA MINAS GERAIS (BAIRRRO VILA ALICE) - ONDE MOROU ARISTIDES INÁCIO DA SILVA [ITAPEMA/SP] 2011.

Pojucã da Silva Souza, 61 anos (filho do amigo Ari, vizinho de rua), trabalhador portuário, que também conviveu intimamente com Aristides conta sobre ele:
"Ele era um homem forte, alto e cumpria seu trabalho com eficácia, carregando várias sacas de café nos ombros..." - Como naquela época ganhava-se por produção, Aristides trabalhava muito faturando um bom salário.
O agora estivador Aristides Inácio da Silva mandava de vez em quando algum dinheiro para o Distrito de Caetés, onde deixara sua família primeira. Também enviava e recebia notícias através de cartas que seus amigos alfabetizados ajudavam a escrever e entender. Lá no semi-árido pernambucano, do município de Garanhuns, a enganada esposa Eurídice esperava naquela incerteza, seus filhos inseguros.
"Para nós, naquele tempo, não tinha esse negócio de chorar. Ele disse que vinha trabalhar e mandar dinheiro. E mandava. Não todo mês, quando dava. Era difícil chegar..." - Se alembra o filho Vavá.
Aristides era um trabalhador honesto, ensacador de café competente, um dos melhores, dos mais fortes, e consciente da categoria à época. Embora estivador tinha o hábito de ir trabalhar alinhado, de terno e gravata.
Mas, nada indica que Aristides pensasse num desenlace definitivo com a esposa Eurídice. Cinco anos depois (1950), retornaria a terra natal de visita. Ocasião inclusive em que apresentou à sua primeira família, os três filhos tidos com a mulher Valdomira ("Mocinha"). Todavia, sem mencionar nada a respeito do amasiamento. Momento em que também conheceu seu filho Luiz Inácio ("Lula'). Ainda nesta rápida estada, a esposa engravidaria então da filha "Tiana" (Rute). De volta para ITAPEMA/SP, por insistência de Lindu, bastante cabrera, traz consigo o  filho Jaime.
Nesse contexto da migração, fixando-se ao lugar, Aristides Inácio da Silva tornou-se um legítimo representante do tecido social formador do Distrito itapemense, agregado à sua população originária, que lhe acrescentaria uma outra característica cultural marcadamente nordestina.
Em Dezembro de 1952, quando "Lula" tinha apenas 7 anos de idade, Eurídice decidiu migrar para o Litoral do Estado de São Paulo com seus filhos, a fim de reencontrar o marido estivador. Acreditando que Aristides fizera esse pedido. Mas, na verdade fora invenção de seu filho Jaime, o qual escreveu dizendo para a mãe ser este o desejo de Aristides, reunir a família. De fato, a carta era do pai, que ditou o texto para o filho escrever. Aristides dizia que estava mandando dinheiro, e que Lindu continuasse por lá cuidando bem de sua gleba de terra. Afirmava ser a vida por aqui muito difícil, embora trabalho não faltasse.
"Meu pai não sabia ler. Eu também não sabia, nem sei até hoje. Essa é a verdade. Mas sabia fazer rascunho. Eu tava apanhando que nem cachorro velho e sozinho. Sofrendo como um condenado. Ele mandava notícias pra mãe, falando em saudade, dizendo que tava tudo bem. Mas era só a carta que tinha saudade, não o pai. Como ele não sabia ler, aproveitei o embalo..." - Jaime escrevinhou em algumas linhas diferente das ordens de Aristides:
"Lindu,
vende tudo e vem pra cá viver comigo. A vida aqui é melhor. Estou te esperando. Aristides." - O pai pediu pra ver a carta. E olhou com cuidado. Porém, era cego para o alfabeto.
Ou em outras palavras, do jeito que conta Jaime:
"(...)Vocês vão morrer de fome aí. Vendam tudo e venham pra cá."
Após treze dias de viagem em um pau-de-arara (caminhão carregado de gente na carroceria) desceram num lugar do Bairro do Brás, na Capital Paulista.
"(...)O pau-de-arara parava nos postos de gasolina pra gente dormir, pra comer farofa. Os porcos vinham roubar a comida da gente a noite. Eras só poeira..." - Lembra Vavá da viagem dificultosa, o caminhão apinhado de retirantes e seus parcos pertences.
Tomaram um táxi, descendo a Via Anchieta (recém inaugurada) até a Baixada Paulista, onde chegaram ao ITAPEMA/SP, na Ilha de Santo Amaro.
Dentro da Barca, Lula e seus irmãos, sujos e descabelados, seguravam em suas trouxas com roupas gastas, fotos de família, coisas mínimas. Lindu carrega o maior patrimônio estimado, os filhos tidos com Aristides, acreditava que sua vida recomeçaria naquele instante... Para alguém acostumado a ver pequenas quantidades de água, deslizar entre navios enormes parecia coisa de outro mundo. Logo, a Barca atracaria. E o marido estaria ali de braços abertos... Quando desceram da embarcação na Estação de Itapema, conseguiram informações sobre o estivador Aristides. Ele estava próximo, e alguém foi avisá-lo de que sua família havia chegado. Aristides empalideceu... Que diabo é isso!? Chamou Jaime, que descansava recostado num canto. Os dois saíram rapidamente. Em frente a um bar, Eurídice e seus filhos esperavam ansiosos. Mas, seus sorrisos se dissolveram quando olharam nos olhos de Aristides. Viram neles a cor da raiva. A boca contraída de indignação.
"PONTÃO DAS BARCAS" EM ITAPEMA/SP [DÉCADA DE 1960].

"(...)Ele [Jaime] escreveu para nós em 1952. Foi coisa dele dizer para a mãe que era pra vender tudo e vir embora para São Paulo. O pai não estava nos esperando. A reação dele foi braba..." - Comenta José Ferreira, apelidado "Ziza" (hoje Frei Chico).
"(...)O pai não sabia que eu tinha escrito e estranhou quando chegaram aqui. Chegou a turma toda, eu não conhecia mais ninguém. Ele ficou macho... Tava morando com a outra, não sabia o que fazer..." - Aristides nunca soube quem os tinha chamado, conta Jaime.
Noutro depoimento à jornalista Denise Paraná acrescenta Vavá:
(...)Chegamos em São Paulo e andamos pela primeira vez de automóvel. Uma maravilha. Um táxi. Um chevrolet 51. Era uma alegria a sensação. Descemos no Armazém VIII, fomos atrás do meu pai. Ele era carregador de café, quando ele nos viu, só não matou a gente porque não pôde. Tinha outra família. E casa pra todo mundo?..." - Cismou então que deveriam ter trazido seu cachorro de estimação ("Lobo"). Mas como?... Deixaram lá o bicho abandonado! Pra ele era preferível ter vindo o cachorro.
Aristides talvez considerasse de forma conveniente poder ficar com duas famílias, sendo mínimo provedor delas. Pelo caráter adquirido da condição de marido, próprio daquela época. Envolvendo as mulheres numa relação ambígua dentro do aceitável. Uma residindo no Distrito itapemense, a outra em Caetés (PE).
Ficara evidente que ele pretendia ter uma nova vida na cidade grande. Eurídice e os filhos ao lado atrapalhavam.
Em ITAPEMA/SP, surpresos, tiveram de dividir a convivência de Aristides mais a família formada com Valdomira.
"(...)Depois, aqui, eu queria conversar com ela, mas ela não queria. Ela tinha raiva de mim, mas eu não tinha raiva dela. É que eu vim com o marido dela..." - Comenta "Mocinha" numa entrevista.
Aliás, o excepcional da circunstância, ter duas famílias, casado com Eurídice e amásio de Valdomira (prima da esposa), que convivera com o casal, numa certa semelhança destes particulares escândalos domésticos, guarda exemplos em algumas antigas famílias de origem nordestina, as quais se constituíram em ITAPEMA/SP. Muito por conta da distância, os encontros e desencontros da migração, dos novos vínculos afetivos e relações estabelecidas.
A convivência difícil, motivada pelo marido (extremamente rigoroso com seus filhos), pois era rude, muito bruto, sem nenhum carinho por eles. E diante do inusitado daquela situação do casamento. Levou Lindu a pedir para sair de casa com a filharada. Aristides passou a morar noutra, vizinha a de Eurídice, também na Rua Minas Gerais - Bairro Vila Alice.
"(...)A mãe do Lula ficava na casa grande porque tinha muitos filhos..." - Menciona Valdomira.
"(...)Ficamos um ano e pouco com ele. Levou a família para a outra casa e nós ficamos morando na casa que ele morava. Era muito ignorante. Maltratava muito a gente. Minhas irmãs trabalhavam em casa de família, os mais velhos também trabalhavam. A gente não podia sair de casa, não podia ir à escola..." - Lembra José Ferreira, o "Ziza".



O CAPÍTULO CONTINUA...

quinta-feira, 27 de julho de 2017

FERROVIA DE CARGA EM ITAPEMA/SP

LOCOMOTIVA OPERA NA FERROVIA DE CARGA EM ITAPEMA/SP.

A vocação portuária itapemense advinda da utilização de suas margens por estaleiros, píeres de transbordo de produtos e/ou mercadorias, ancoradouros pesqueiros, postos da administração portuária, garagens de barcos dos clubes náuticos, terminais de transporte de passageiros, dentre outros serviços marítimos feitos em pequenas e médias embarcações ainda em tempos remotos, efetiva-se à partir de 1958 quando é implantado pela CDS - Companhia Docas de Santos o primeiro cais em Conceiçãozinha, recebendo navios de maior porte.
O projeto do urbanista Prestes Maia (Plano Regional de Santos - 1950) preconizava a construção de novas instalações portuárias na margem esquerda de ITAPEMA/SP, promovendo indústrias e terminais marítimos de carga, a serem atendidos pelos diferentes modais, inclusive o ferroviário.
No início da década de 1970 havia uma projeção de avanço agrícola da produção brasileira, consequentemente perspectiva de expansão do Porto na margem esquerda itapemense do estuário, instalando-se terminais marítimos de carga a granel. Tanto como desapropriações de terrenos para assentamento do Retroporto.
Em 1971, passa a funcionar o Complexo Industrial da Dow Química S/A, em Conceiçãozinha, dispondo de cais com 153 metros de comprimento para operação de granéis líquidos (produtos químicos, inflamáveis).
Pelo final de 1971, sob administração da CDS - Companhia Docas de Santos, é inaugurado em Conceiçãozinha, o Terminal de Fertilizantes (TEFER), também denominado "Cândido Gaffré", com movimentação de granéis sólidos minerais (adubos, enxofre), a princípio transportados por caminhões. Em 1977, o TEFER era considerado o maior terminal exclusivo recebedor de adubo a granel do Brasil. Capacidade nominal de 180 mil toneladas. Dotado de Grabes (guindastes), operando 2 navios simultaneamente e descarga de até 4 produtos diferentes. À época 80% do adubo importado pelo Porto desembarcava na margem esquerda de ITAPEMA/SP.
FERROVIA DE CARGA CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ ATRAVESSA O DISTRITO ITAPEMENSE/SP.

Para recebimento de mercadorias, bem como suprir demandas dos Terminais Marítimos projetou-se um Ramal Ferroviário de Carga, construção iniciada em 1975, pertencente a RFFSA (Rede Ferroviária Federal S.A.), cerca de 4 Km em bitola mista (três trilhos), que veio beirando ITAPEMA/SP, às margens do estuário (Bocaina, Prainha) em direção à Estrada Velha da Conceiçãozinha. Neste trajeto cortou o antigo campo do Itapema F.C., na Rua Leonilópolis, atravessou terrenos dos estaleiros, desapropriou casas, comércios, avançou sobre o Cine Itapema (saudoso "Cinema Grande"). E bem mais adiante desbastando a Restinga itapemense, rasgou os campos de futebol do Cruzeirinho, do Boa Esperança, próximos à "Gamboa do Juca" (Rio da "Pouca Saúde"), área do Sítio Conceiçãozinha estabelecendo seu Pátio de Manobras e ramificações férreas com os terminais marítimos de carga.
PONTE FERROVIÁRIA - FERROVIA DE CARGA CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ [ITAPEMA/SP] 1979.
LOCOMOTIVA A DIESEL PUXA COMPOSIÇÃO SOBRE A PONTE FERROVIÁRIA [ITAPEMA/SP] 2010.

Este Ramal Ferroviário de Conceiçãozinha pela margem esquerda itapemense está ligado à uma Ponte Ferroviária, em estrutura metálica, de 1.546,10 m de comprimento, com seções de 50 m e Vão Central Móvel de 46 m e altura máxima de 14 m, permitindo a navegação de barcos de pequeno e médio porte. A meso-estrutura da Ponte férrea, onde foram assentados a bitola mista e o terceiro trilho, foi toda arquitetada em Aço tipo 52 de formato trapezoidal inteiriço, recebendo aditivos externos de cobre e titânio para evitar corrosão. As fundações, semelhantes às da Ponte Rio-Niterói, foram feitas com estacas metálicas, porém recebendo um revestimento anticorrosivo. Uma das maiores do gênero no Hemisfério Sul, construída pela NORBERTO ODEBRECHT. Desde a parte continental santista, cruzando no estuário o Largo de Santa Rita, ao longo da Bocaina até as proximidades do Forte de Itapema, no Bairro homônimo, perfazendo 5,5 Km da Ferrovia de Carga nos limites do Distrito.
VÃO CENTRAL MÓVEL - PONTE FERROVIÁRIA RAMAL CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ [ITAPEMA/SP] 1979.
PONTE FERROVIÁRIA RAMAL CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ TRANSPÕE O ESTUÁRIO SOBRE O LARGO DE SANTA RITA [ITAPEMA/SP] 2004.

O acesso de trens de carga para o Ramal Ferroviário de Conceiçãozinha, com um total de 25,2 Km de extensão de trilhos, a partir do Pátio Perequê (Cubatão/SP), sobrepujando mangues, rios, aclives geográficos, charcos, obstáculos topográficos e a densa vegetação da Mata Atlântica. Além do Túnel Ferroviário sob o Morro das Neves (área continental de Santos/SP), com 981 metros de comprimento, sendo 28 m de talus, 119 m em saprolito bastante heterogêneo, 68 m em rocha decomposta  e  734 m em rocha cã, tendo 45,9 metros quadrados de seção acabada. Incluindo a Ponte Ferroviária perlongando a Bocaina, os trilhos pelo Distrito, o Pátio de Manobras em ITAPEMA/SP. Dados da PORTOBRÁS/RFFSA - 1972/81.
FERROVIA DE CARGA  CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ CRUZA BAIRROS DO DISTRITO ITAPEMENSE/SP.

Remanescente do II PND (Plano Nacional de Desenvolvimento), onde conquistou prioridades iguais às da Ferrovia do Aço, o Ramal Ferroviário de Conceiçãozinha trouxe os trens da Rede Ferroviária Federal e da Fepasa à margem esquerda itapemense, atendendo assim às necessidades de ampliação do Porto. De forma experimental a Ferrovia de Carga (Conceiçãozinha - Perequê) funcionava desde o ano de 1979, sendo inaugurada oficialmente em Agosto de 1981.
Registra o caderno semanal "Marinha Mercante em Todo o Mundo", do Jornal 'O Estado de S. Paulo', numa matéria de Amaury César sobre o empreendimento da Ferrovia de Carga:
"(...)Até Dezembro de 1979, quando os primeiros trens experimentais alcançaram a área de Conceiçãozinha, haviam sido gastos na obra Cr$ 2 bilhões e 350 milhões [de Cruzeiros], sendo 29,17% investidos pela PORTOBRÁS, 54,17 pela Rede Ferroviária Federal [RFFSA] e 16,66% pelo BIRD. Acrescente-se a esse custo as obras do Pátio construído em Conceiçãozinha, onde foi instalada uma Balança Ferroviária automática para 142 toneladas, para pesagem dos fertilizantes a granel provenientes do Terminal que ali funciona. Só no Pátio há 3,2 quilômetros de linhas com o terceiro trilho, para trens de 1 m e 1,6 metros de bitola.
PÁTIO DE MANOBRAS RAMAL FERROVIÁRIO DE CARGA CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ [ITAPEMA/SP].
DESVIOS NA LINHA FÉRREA INTERLIGAM OS TERMINAIS MARÍTIMOS A FERROVIA DE CARGA ITAPEMA/SP.

Junto aos seis armazéns de fertilizantes [TEFER], foram implantadas linhas que totalizam quatro quilômetros, além dos quase quatro quilômetros de linhas internas no recém-inaugurado Terminal de Conteineres [TECON].
No projeto do ramal da margem esquerda foram considerados o Terminal de Fertilizantes, que deve a curto prazo movimentar por Estrada de Ferro cerca de dois milhões de toneladas anuais, e o Terminal de Conteineres, que deve absorver, numa primeira fase de operações, 50% dos 110 mil cofres-de-carga a serem movimentados via Santos em 1982.
FERROVIA DE CARGA CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ PERLONGANDO A MARGEM ESQUERDA DO PORTO [ITAPEMA/SP].

Para atender a essa demanda de transporte, o Ramal de Conceiçãozinha foi planejado e construído com um superdimensionamento das estruturas, observando, apesar do terreno acidentado, rampas máximas de 1,3% e raios mínimos de curva de 286 metros, o que permite uma velocidade de segurança de até 60 quilômetros horários nos trens, considerada pela Engenharia Ferroviária como excelente, por se tratar de um leito destinado à carga..." - Detalha ainda a matéria jornalística.
"(...)A ponte tem vãos de 50 metros cada um, e mais um vão central móvel de 46 metros, que sobe 10 metros em relação à parte fixa. Com isso, permite a passagem de barcos com até 14 metros de altura sobre o maior preamar registrado nos últimos 25 anos naquela área. Um sistema eletro-mecânico aciona de forma rápida, a parte elevadiça, completando toda a operação em quatro minutos, ou oito minutos no restabelecimento do tráfego ferroviário..."
LOCOMOTIVA CRUZA A PONTE FERROVIÁRIA DO RAMAL DE CARGA CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ [ITAPEMA/SP].

Concomitantemente em Agosto de 1981, começa a operar o Terminal de Contêineres (TECON), administrado pela CODESP (Companhia Docas do Estado de São Paulo). 596 mil metros quadrados de área, capacidade de movimentação de 2 milhões de TEU por ano. Equipado de Transtêineres sobre trilhos para transbordo dos cofres-de-carga.
Em 1982, tem iniciado novo serviço intermodal entre as duas margens do Porto pela Transitária Brasileira S.A. (Transbrasa), do Grupo Dickinson. A Empresa passou a utilizar a Ferrovia da RFFSA para enviar os contêineres da margem direita (Santos/SP) para o TECON (Terminal de Contêineres), na margem esquerda itapemense do Porto e vice-versa. Obtendo com isso além de uma redução nos gastos com fretes, substancial economia de tempo na movimentação de carga e descarga de mercadorias.
PANORÂMICA DA PONTE FERROVIÁRIA AO LONGO DA MARGEM ESQUERDA ITAPEMENSE DO PORTO [2012].

Nessa oportunidade (Julho de 1982), o repórter Carlos Pimentel Mendes em matéria publicada no Jornal 'O Estado de S. Paulo', pode avaliar e acompanhar a rotina da Ferrovia de Carga Conceiçãozinha-Perequê [site 'Novo Milênio]:
No Ramal Ferroviário de Conceiçãozinha são empregadas Locomotivas de 720/750 HP a diesel, que levam até 16 vagões com contêineres de 1.500 toneladas, ou Locomotivas de 1.800 HP, capacidade para puxar até 26 vagões com contêineres de 2.500 toneladas, considerando-se que cada vagão-plataforma recebe até 3 contêineres de 20 pés, devidamente fixados e escorados contra quedas.
A composição deixa o Pátio de Manobras Piaçaguera (Cubatão/SP), às 12:31 h., rumo à Conceiçãozinha (ITAPEMA/SP) na margem esquerda do Porto, seguindo pelo trecho de vegetação, passa pela localidade dita "Sítio do Pica-Pau", depois deparando-se com o Túnel Ferroviário perfurado no Morro das Neves (Santos/SP), toma a rampa de acesso (Ilha Barnabé) com inclinação de 45 graus transpondo no estuário o Largo de Santa Rita sobre a Ponte Ferroviária defronte à Bocaina. A Ponte Férrea possui um segmento central içável possibilitando a passagem das embarcações por baixo.
VÃO CENTRAL MÓVEL PONTE FERROVIÁRIA RAMAL DE CARGA CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ [ITAPEMA/SP].

A operação de movimentação do Vão Central Móvel (46 m de comprimento e 14m de altura) levou 6 minutos para descer e 8 minutos para subir, incluso o travamento na posição correta através de calços hidráulicos automáticos.
PONTE FERROVIÁRIA DA FERROVIA DE CARGA EM ITAPEMA/SP PASSA POR REPAROS ESTRUTURAIS [DÉCADA DE 1980].

Chega a composição ao Pátio da Estação de Conceiçãozinha, às 13:31 h., onde a Locomotiva é desengatada de um lado e a Máquina da CODESP (600 HP, capaz de tracionar 1.200 toneladas) engata de outro, sendo feita a transferência de carga da Ferrovia pelos desvios dos trilhos para os Terminais Marítimos.
LOCOMOTIVA MANOBRA VAGÃO EM TERMINAL DE CARGA DA MARGEM ESQUERDA DO PORTO [ITAPEMA/SP] 1982.

As Estações dispunham de dispositivos de staff. Trata-se de um mecanismo de controle de tráfego ferroviário, que consiste num conjunto de bastões de ferro com sulcos irregulares e o nome de 2 Estações gravado. Levado pelos maquinistas de uma Estação para outra, servem para avisar a Estação seguinte de que a linha vai estar ocupada. Enquanto introduz a peça no dispositivo, o responsável pela Estação informa à Estação seguinte (por telefone) o código da composição que está saindo. Lá, ao receber o sinal, seu colega retira um bastão do dispositivo semelhante para trocar com o maquinista, quando o trem passar. Isso evita que dois trens percorram simultaneamente a mesma linha férrea, o que poderia acarretar uma colisão.
Estimativas que vislumbravam armazéns de carga, silos para 60 mil toneladas de cereais à granel se realizam nos anos de 1980, cujo avanço não parou mais. Terminais de grãos (soja, milho), farelos, açúcar, suco de laranja, foram tomando a paisagem do Porto itapemense com seus grabes (guindastes "cangurus"), esteiras transportadoras, shiploaders, portêineres à lembrar "dinossauros mecânicos", abastecidos pelo Ramal Ferroviário em vagões de carga, ladeando o Distrito.
Maio de 1985, entra em funcionamento o Terminal da Cutrale (Sucocítrico Cutrale Ltda), com 286 metros de cais acostável operando sucos cíticos a granel e polpa cítrica (farelo de laranja).
Inaugurado o terminal da Cargill Agrícola S.A., no ano de 1986, para embarque de comodities: soja, milho, farelos, açúcar.
Com a concessão da infra-estrutura ferroviária a operadores privados, estabelecida entre 1996 e 1999, os corredores de acesso ao Porto permaneceram sob controle de diferentes empresas do setor, responsáveis pela operacionalização do transporte de carga envolvendo os ramais ferroviários da margem direita (Santos/SP) e a margem esquerda itapemense do Porto. O Ramal Ferroviário de Conceiçãozinha-Perequê cedido a MRS Logística, compartilhado por Ferroban (Ferrovias Bandeirantes S/A), Ferrovia Novoeste S.A., Fca (Ferrovia Centro-Atlântica S.A.) e ALL (América Latina Logística).
O RAMAL FERROVIÁRIO DE CARGA CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ ATRAVESSA ÁREA URBANA EM ITAPEMA/SP.

Entre as proximidades do Forte de Itapema e Conceiçãozinha, o leito ferroviário foi assentado praticamente em percurso habitado ou já urbanizado, atravessando bairros a acarretar problemas de convívio com a Ferrovia de Carga em ITAPEMA/SP. A Estrada de Ferro extinguiu patrimônios emblemáticos constituintes do Distrito, o campo de futebol do centenário Itapema F.C., o saudoso Cine Itapema, desapropriou chalés antigos, desalojou tradicionais estaleiros.
A FERROVIA DE CARGA CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ EXTINGUIU PATRIMÔNIOS EMBLEMÁTICOS CONSTITUINTES DO DISTRITO ITAPEMENSE/SP.

Enquanto os trilhos avançavam pelo Distrito portuário, inúmeras ocasiões, o substrato utilizado no assentamento da Ferrovia de Carga, precisava ser reposto pela Empreiteira da obra, pois o morador itapemense se aproveitava ao carregar a terra em carrinhos-de-mão para aterrar os seus quintais. Dormentes serviam como estrutura de chalés e barracos, bancos à frente das residências, fazer pequenas pontes acima das valas de águas pluviais insalubres.
LOCOMOTIVA À DIESEL PERCORRE O RAMAL FERROVIÁRIO DE CARGA [ITAPEMA/SP].

A ampliação do Porto na margem itapemense implantando-se terminais marítimos de exportação e importação, o Ramal Ferroviário de Carga Conceiçãozinha-Perequê deixaria seu rastro. Devido a desatenção da Autoridade Portuária, permitiu a ocupação precária e desordenada de habitações na faixa de marinha do estuário. Consequentemente, terras à beira da linha férrea, trechos da Restinga degradaram-se dando espaço à moradias irregulares junto aos trilhos da Ferrovia de Carga, senão espremidas ao lado dos terminais marítimos em ITAPEMA/SP.
MORADIAS À BEIRA DO RAMAL FERROVIÁRIO CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ [ITAPEMA/SP].

O trem de carga corta o cotidiano das conhecidas comunidades itapemenses, com riscos de descarrilamento de vagões, derrame de produtos, ou mais comumente atropelamento de transeuntes, tendo ocorrido casos de mutilação de membros humanos, acidentes fatais com pessoas e animais domésticos (cães, gatos). Meninos e jovens, como seu brinquedo, inadvertidamente pegam carona ao verem passar a composição ferroviária.
Ao atravessar a área urbana a Ferrovia de Carga cruza em nível, o trânsito de veículos e pedestres no "Pontão das Barcas", causando transtornos naquela passagem, quando da decorrência da grande movimentação de vagões. Embora haja uma passarela ali, a interferência do Ramal Ferroviário no tráfego é notória. De muita serventia foi a instalação da passarela sobre o Pátio de Manobras, no Sítio Conceiçãozinha.
PASSAGEM DE NÍVEL FERROVIA DE CARGA NO "PONTÃO DAS BARCAS" [ITAPEMA/SP].
VAGÕES ATRAPALHAM A PASSAGEM DE PEDESTRES NO "PONTÃO DAS BARCAS" - FERROVIA DE CARGA EM ITAPEMA/SP.

O projeto original do Pátio de Manobras do Ramal de Conceiçãozinha, possuía 4 linhas férreas partindo da principal, porém nenhum desvio entre elas, de maneira que para a remoção de um vagão que estivesse no meio de uma dessas linhas, tornava-se necessário usar a linha principal por diversas vezes, interrompendo seguidamente o tráfego de caminhões oriundos da Via Idalino Pinez (Rua do Adubo) na passagem de nível, intersecção conflitante dos modais. Embora tenha sofrido adaptações, considerado um ponto crítico, sujeito a congestionamentos por misturar-se ao trânsito urbano de ITAPEMA/SP. A medida adotada após muitos anos foi um Viaduto por cima do Ramal Ferroviário Conceiçãozinha-Perequê, a segregar o modal rodoviário, do ferroviário. Contudo, o ideal seria este Viaduto transpondo também a Via Santos Dumont, além da Ferrovia de Carga, evitando o conflito dos caminhões com o trânsito urbano do Distrito, mas a obra não contemplou tal solução, ficando aquém de resolver o problema de forma definitiva.
De maneira geral, o cenário da logística portuária no Brasil é preocupante apesar do crescimento e dos elevados investimentos que vêm sendo feitos, diversos entraves ainda comprometem a competitividade dos portos brasileiros, tais como a baixa integração modal, as deficiências nos equipamentos de movimentação, a complexidade regulatória e as dificuldades nos acessos terrestres e marítimos.
O arco ferroviário do Porto (tendo cerca de 40 Km), que permite a interconexão das diferentes, malhas férreas aos terminais de embarque e desembarque de carga encontra-se sob concessão da MRS Logística.
Para aumentar o fluxo de cargas que chegam e saem do Porto por meio das ferrovias, o concessionário trabalha com pátios de cruzamento em alguns trechos estratégicos de suas malhas, minimizando a dificuldade do trilho único e possibilitando a passagem de um trem, enquanto outro trem espera nesse pátio de acordo com a priorização das concessionárias das ferrovias.
O aumento da participação do transporte ferroviário é importante para que as quantidades movimentadas pelo Porto continuem crescendo, visto que encontra dificuldades para movimentar os milhões de toneladas anuais.
Conforme especialistas no transporte ferroviário, um vagão é capaz de transportar de 80 à 100 toneladas de grãos, isso significa que cada um pode substituir até 4 caminhões, uma composição leva de 6,5 à 8 mil toneladas de mercadorias de uma só vez, podendo retirar das estradas de rodagem 320 veículos de carga. A eficiência dos vagões se dá nos casos em que as cargas ultrapassam 40 toneladas, seja em médias ou longas distâncias para cargas maiores e mais pesadas. Bem como pelo baixo custo de manutenção das linhas férreas. O transporte ferroviário utiliza menor área para a mesma quantidade de carga transportada, uma vez que os trens ocupam menos espaço do que os caminhões, tanto nas vias comuns quanto nos terminais de embarque e desembarque, permitindo aumentar a produtividade das operações dos terminais marítimos e movimentar uma quantidade maior de carga na mesma área de cais.
A capacidade de transporte ferroviário pela margem esquerda itapemense do Porto poderia ser aumentada para até 25 milhões de toneladas anuais, se os terminais tivessem suporte para movimentar toda essa carga trazida em composições ferroviárias. Isto requer investimentos necessários tanto por parte dos arrendatários dos Terminais Marítimos quanto pela Administradora Portuária. A maioria desses comboios transportam cargas a granel, que são descarregadas dos trens nas moegas disponíveis no Porto (margem direita e esquerda), sendo que em alguns casos o processo é lento, baixa quantidade de vagões por hora, o que resulta num gargalo na operação. O restante das composições é carregado de contêineres, as quais normalmente são administradas por operadores logísticos devido aos trâmites aduaneiros.
A participação das ferrovias na movimentação de carga no Porto, em 2003, atingiu índice de 16%.
Dados de 2004, as ferrovias que atendem o Porto transportavam cerca de 9 milhões de toneladas, equivalente a 13% da movimentação portuária total. Apesar de seu aumento constante desde 1998, quando a quantidade de cargas transportadas pela ferrovia era de apenas 1,6 milhão de toneladas, o transporte ferroviário ainda é reduzido em face da abrangência das malhas ferroviárias com acesso ao Porto, cuja extensão dessas ferrovias atingem uma vasta interligação que inclui as Regiões Sul, Sudeste, os Estados de Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul e o país vizinho, Bolívia.
A margem esquerda do Porto (ITAPEMA/SP) movimentava em 2004, quase 20 milhões de toneladas. A capacidade de transporte de cargas ferroviárias era de 17 milhões de toneladas anuais. A PORTOFER indica neste período que a margem esquerda trabalha com grande movimentação ferroviária de carga:
Complexo Soja e Açúcar = 5,508.000 toneladas.
Fertilizantes e Enxofre = 1,427.400 toneladas.
Contêineres = 954.000 toneladas.
Num total de 7,889.400 toneladas.
Registros da CODESP assinalam o movimento de cargas na margem esquerda itapemense do Porto, através de seus terminais marítimos, oferecendo os seguintes números:
Terminal de Fertilizantes = 2,023.408 toneladas.
Cargill = 6,143.623 toneladas.
Tecon = 8,389.966 toneladas.
Cutrale = 1,029.923 toneladas.
Dow Química = 692.931 toneladas.
Totalizando em carga 19,480.945 toneladas.                      

O CAPÍTULO CONTINUA...  

quarta-feira, 28 de junho de 2017

UM ARCO-ÍRIS SOBRE ITAPEMA

PANFLETO DA '1ª PARADA LGBT DE GUARUJÁ' REALIZADA NO DISTRITO ITAPEMENSE/SP CONVOCANDO A COMUNIDADE GAY [2012].

O fim-de-semana do feriado da Independência brasileira, em 2012 prometia ser bem agitado em Guarujá. Domingo, 9 de Setembro era a estréia da PARADA LGBT na Estância Balneária. Muito embora a ocasião glamourosa fosse na "Pérola do Atlântico", o evento aconteceu em ITAPEMA/SP e surpreendeu as expectativas dos participantes. Tendo cobertura jornalística do blog 'Baixada em Cores', guia exclusivo destinado ao público LGBTT da região.
"O preconceito é o último dos sentimentos que alguém deveria ter, fizemos o possível para realizar a Parada, façam o possível para se divertirem também." - Foi com estas palavras que a idealizadora da '1ª PARADA LGBT de Guarujá', Bebê Pazanelly deu início ao percurso que os foliões fizeram desde a Av. Santos Dumont até a apoteose na Praça 14-Bis, centro do Distrito itapemense.
A '1ª PARADA LGBT' BY BEBÊ PAZANELLY INICIA SEU PERCURSO NA AVENIDA SANTOS DUMONT [ITAPEMA/SP] 2012.

Aproximadamente 2 mil pessoas passaram pela Parada participando da festa da diversidade sexual. A garoa fina só fez cintilar ainda mais o arco-íris, que se estendia por uma das principais avenidas da cidade. Bem como, a modesta infra-estrutura da primeira edição do evento gay não diminuiu o entusiasmo das pessoas. A festa do orgulho gay a princípio concentrou-se na Av. Santos Dumont, esquina com a Rua Joana de Menezes Faro a partir das 16:00 h., mantendo-se ali até pouco mais das 18:00 horas.
A BANDEIRA LGBT CINTILA NA NOITE DO DISTRITO ITAPEMENSE/SP [2012].

Movida por muita música e alegria, reunindo gente fantasiada, gays ou simpatizantes da causa, logo a Bandeira LGBT foi estendida e tremulou aplaudida pela avenida, qual marcou a largada da Parada Gay. Hits musicais nos Trios Elétricos envolveram o público pelas quadras seguintes rumo ao palco da Praça 14-Bis, chegando por volta das 19:30 h., onde o evento culminou com empolgante trilha sonora, shows, concursos e divertimento até a emblemática meia-noite...
A BANDEIRA DA '1ª PARADA LGBT' UM ARCO-ÍRIS SOBRE ITAPEMA/SP [2012].

Bebê Pazanelly, homossexual assumida, revela que trabalhou por um ano e meio para conseguir finalmente realizar esta '1ª PARADA LGBT', sendo a coisa que mais a motivou foi o preconceito da sociedade a respeito da opção de gênero sexual. Frequentadora da Parada Gay de São Paulo, a travesti Pazanelly há muito sonhava trazer a festa da diversidade para a cidade litorânea:
"(...)O objetivo é combater o preconceito, porque eu sofri também, tanto na rua quanto dentro de casa." - Segundo Bebê Pazanelly, a Parada tem propósito de estabelecer uma data de luta. Ainda que pareça um evento carnavalesco, seu intuito é também combater a homofobia e gostaria de incluir a PARADA LGBT oficialmente no calendário do município. Disse a organizadora à mídia.
O PÚBLICO SEGUIU A '1ª PARADA LGBT' PELA AV. SANTOS DUMONT [ITAPEMA/SP] 2012.
GRACIOSA PARTICIPANTE DA '1ª PARADA LGBT' [ITAPEMA/SP] 2012.

Ao embalo de música Eletrônica, Disco, Pop e inclusive Funk desfilaram 2 mil adeptos da Liberdade. Algumas pessoas estavam vestidas das mais diversas formas possíveis. Muita gente trajada de forma casual. Mas não faltaram perucas extravagantes, óculos coloridos, fantasias de carnaval. Além das exuberantes Drag Queens. Entre as atrações o popular Dj Cabral e Artistas do cenário LGBT de São Paulo.
DIVERSAS ATRAÇÕES DA '1ª PARADA LGBT' BY BEBÊ PAZANELLY SE APRESENTARAM NO PALCO DA PRAÇA 14-BIS [ITAPEMA/SP] 2012.

As personalidades do universo gay já conhecidas na Baixada Paulista também agitaram a noite. A Drag Camila de Oliveira, qua atuava há mais de sete anos como performer, se apresentou às 21 horas, no palco da Praça 14-Bis. A maquiagem estava impecável e Ela distribuía sorrisos entre o público embasbacado. Moradora da cidade, não poderia deixar de comparecer a este momento tão significativo:
"Eu me sinto muito orgulhosa de estar aqui. Tudo nessa vida se começa com humildade. Hoje eu vou ter a humildade de me apresentar de graça, porque esse passo é muito importante para a cidade."
UMA BELDADE DA DIVERSIDADE GAY NA '1ª PARADA LGBT' [ITAPEMA/SP] 2012.

Outra que marcou presença seria a Madrinha de São Vicente, Atila Rios, também chamada "Dama da Noite". Famosa na região foi bastante assediada. Tirou fotos e ainda apresentou algumas atrações no palco do evento, como os concursos de dança e "bate-cabelos":
"Para mim, estar aqui é voltar ao passado. Eu me apresentei nesse palco há 15 anos e estar aqui hoje para prestigiar é muito bom..."
GLAMOUROSA REPRESENTANTE DA DIVERSIDADE GAY PRESENTE À '1ª PARADA LGBT' [ITAPEMA/SP] 2012.
 

Uma ausência notória foi da Madrinha de Guarujá, Xuxa Rios [imagem à direita], anunciada anteriormente como homenageada. Por motivos de força maior, a estimada travesti do Distrito esteve impossibilitada de participar.
No principal momento da noite aconteceu o primeiro Beijo Gay Oficial da cidade, protagonizado por um casal morador de Guarujá, do Bairro Santo Antônio, levando o público ao delírio, que exultava: "Não ao Preconceito!"
PRIMEIRO BEIJO GAY OFICIAL DA PARADA LGBT [ITAPEMA/SP] 2012.

Bebê Pazanelly e Atila Rios souberam comandar a Festa Gay, que contou com muita segurança, agito e sobretudo, respeito. Podia-se facilmente perceber que os moradores do Distrito itapemense, junto aos seus filhos também estavam curtindo o evento naquele domingo. Um marco para avançar cada vez mais o combate à homofobia. O público presente feliz com a conquista. A estudante de Pedagogia T. M. S. acredita que a cidade necessitava de um incentivo contra o preconceito:
"Não tínhamos algo do gênero para mostrar nossa força. Não querendo fazer apologia, mas as pessoas precisam saber que somos todos iguais." 

terça-feira, 20 de junho de 2017

GRETA JEAN, a international da margem esquerda

GRETA JEAN, "A PEONEIRA DE ITAPEMA" FAZENDO HISTÓRIA.

Desobedecendo ordens expressas do Capitão, o tripulante filipino evadiu-se do 'New Ventureri' então atracado no cais de Conceiçãozinha, na margem esquerda itapemense do Porto. Era a primeira viagem ao Brasil.
Longas semanas no mar deixavam sua libido em polvorosa. Informado dos "points" da cidadezinha, pelos "patrícios" estivadores do terno daquele dia zarpou ali pros lados do Rio "da Pouca Saúde", próximo ao Hospital... O píer fincado ao mangue, os sons metálicos, maquinários rangentes, equipamentos ruidosos, composições de carga se chocando, tendo cruzado o ramal ferroviário ficara para trás. Logo o cenário urbano de ITAPEMA CITY se descortinou, a noite lilás sobre o baixo casario do Distrito, de luzes corruscantes pelas luminárias dos postes, dois cães que perambulavam bairro adentro, uma música que tocava alto ao longe numa festa, o varum ocasional dos carros...
Caminhando pela ciclovia, às margens da Via Santos Dumont, avistou um bando de fêmeas à sombra dum muro. O perfume que espalhara abundante recendia ao sereno da noite, misturado a envolvente nuvem de nicotina do seu cigarro Camel.
- Quer fazer amorzinho, bem? - Adiantou-se a bicha da vez. Deu um giro e fez pose mostrando toda sua exuberância, enquanto baixava o bustiê.
"Como ouvi dizer... Brasileira, mulher diferente!" - Pensava consigo na língua pátria lamber-lhe os seios... Deixa cair a bituca incandescente pensa nos lábios.
- Ih, que foi! O gato comeu tua língua?... Cachorrão!! - Se ela desconfiasse do gosto exótico dele por cachorros, e nem precisavam ser de estimação. - Quer que a Greta seja a tua cachorrinha?...

- "Patrícia"...! - Tentou se comunicar.
- Oh, que bonitinho!... Patrícia não, benzinho... Greta Jean. - E cobriu suas tetas apetitosas com a tira de pano colorido envolta do busto.
O marinheiro fillipino, feito um peixe fora d'água, gesticula querendo saber o valor do programa. Só daí, Greta percebeu que o "bofe" era gringo.
- ...Eu achando que seria um guapo filho de índio, menina...! - Pensou surpresa em voz alta.
- Love, "patrícia"... Sex.
- Fuck me you??... $30 dólares. Tem? - Ele pareceu entender o valor.
- Faazzz tuuu-do, né... - Arriscou transpor as dificuldades da língua e se fazer entender.
- Mais $20 dólares, I make deep throat bem gulosa.
Entusiasmado quis encher a mão embaixo...
- Ai, honey! - Assustou-se ela. - Devilzinho!! Área de lazer... Not. Interditada, viu? Dangerous... A Gretinha aqui está "naqueles dias" do mês... Bloody Mary!
- What!? - Continuou ainda a boliná-la quase descobrindo-lhe o segredo. 
Nisso a travesti conduziu a mão do marujo e firmou em suas nádegas sedosas. Virou de costas e delicadamente inclinou-se rebolando charmosa.
"Quando contar pros meus amigos lá em Palawan, que saí com um mulherão desse adepta das posições do Kama Sutra, eles vão me invejar." - Satisfazia-lhe o pensamento no dialeto do seu país.
- O tchan... Ok! - Fez com o dedão positivamente, a unha pintada de esmalte vermelho da Avon.
- Thii... aan. - Tentava soletrar o filipino. - Thian! Is beautiful!! - Riu acanhado deixando à mostra sua banguela.
- Yes... Satisfaction garantida. Made in Brazil. - Esfregou-se nele dengosa.
Sedento tirou uma garrafa miniatura de whisky Black Horse dum bolso da jaqueta Levi's surrada, bebendo de um só gole.
- Enjoy, my boy... Pois para o álcool todas as gatas são pardas. 
- Yeah! Yeah! Very good!
- Like disto?... - Greta lasciva estapeou o próprio traseiro. - Let's go. - As amigas ovacionaram deleitadas. - A moment please, girls... Hoje eu estou international, tá! Lombinho recheado com linguiça importada... - Saiu aos abraços com o marinheiro, dobrando a esquina da Rua Manoel Otero Rodrigues para uma improvisada alcova na urbe itapemense. Greta Jean ganhava fama, já havia dado pra todo mundo. 
       

quarta-feira, 14 de junho de 2017

GRETA JEAN, a peoneira de Itapema



Nascido de batismo Antonio Maria Durão. Porém, numa dessas ambiguidades da "natureza humana" descobriu-se Greta Jean. Uma legítima "pérola do atlântico" refulgente no ostracismo do Distrito itapemense... Seu padrasto maldizia, puta que o pariu era o cúmulo um filho-viado emprestado! Parentes que o viram ainda homenzinho, escandalizados. A mãe resignada vinha em defesa, pois sempre quis uma filha.
Greta decidiu sair de casa e viver essa sua identidade feminina. Resoluta foi morar num "quintal de cômodos" no bairro Vila Áurea. Aprendeu a ganhar o sustento nas esquinas correndo riscos, quando o pudor impedia as moças de família do lugar ou alguma forasteira desabusada, de virar prostituta... Puta conhecida e apontada: a "Peoneira de Itapema", na tresloucada década de 1980. Que anos aqueles! Complementava o aluguel fazendo unhas mais penteados das amigas, vendia lingeries...
...Desde o princípio percebera as coisas de viés. Esse notório estranhamento. Na escola chacota dos garotos por seu jeito frágil. Tempos depois, os policiais que iam lá ensinar bons costumes ao chutar-lhe o traseiro sensual. A sociedade que cuspia e atirava pedras a condenar pela sina escolhida. Repetidas noites que passavam de carro pela Via Santos Dumont e gritavam piadas.
- Eu sou é muito macho, pra estar aqui!!... - Subia nas tamancas cansada de ser enlameada.
CONHECIDO POINT DAS TRAVESTIS NA ESQUINA DA RUA MANOEL OTERO RODRIGUES [ITAPEMA/SP].
  
Greta Jean trazia no corpo as marcas do martírio: silicone, hormônios, depilação a laser, mega-hair... A própria borboleta do asfalto. Beleza incomum de formas feminis, pele dum caramelo aveludado, seios mamilosos, coxas bem torneadas, a bunda tesa atraente. Irresistível para alguns anônimos do sexo masculino...
O traveco sonhava com Milão, shows nas boates paulistanas, dias de glória no carnaval. Desfrutar a Estância Balneária somente em passeios de veraneio. Era de Virgem e queria encontrar um "bofe" de Capricórnio. Assim distraia as horas, entre cigarros e drops, naquele penoso aguardo da clientela.
Já pelas tantas da madruga apareceu Tião. Montado no seu bruto, castigando firme no freio a ar do possante "cavalo", calotas faiscantes na sarjeta... Uma cavalgadura de pessoa. Cavalheirescamente escancarou a porta do caminhão. Dentro da cabine tocava um dos sucessos da dupla sertaneja 'João Mineiro & Marciano', todo o painel luminescente, os ponteiros tesos estremecidos dos arranques do motor.
- Como é...? Tô cum apetite daqueles, belezura! - Sorriso sádico no canto da boca, olhar faminto. Tião escorregou pelo banco de couro para o estribo do veículo. Só de calça jeans caída até a virilha, o torso másculo desnudo.
Greta estremeceu dos tamancos à peruca, o lumbago latente despertou em pontadas.
- Virgem nossa!? Donde saiu isso?
- Hoje quero variar. Fazer um troço diferente... Sexo animal, manja? - O caminhoneiro errante avançava o sinal empurrando a pobre boléia adentro, as fuças debaixo da mini-saia a morder-lhe as nádegas aflitas.
- Ai, meu deus! Por que não nasci mulher? Todo mundo quer me ver pelas costas.